terça-feira, fevereiro 18, 2014

HENFIL, 70 ANOS

"É muito importante quando você consegue se libertar. Liberte os outros e você estará se libertando. Eu sempre trabalhei com uma coisa linda chamada esperança.", Henfil

>>>  no excelente blog Zona Fronca, de Fernando do Valle, há uma matéria sobre os 70 anos que Henfil completaria neste ano.

>>> vídeo do Arquivo News a sobre a história e trajetória de Henfil.


>>> Henfil - Cartas da Mãe




>>> Documentário Henfil Plural

   










Henfil, Chico Mário e Betinho

   

domingo, fevereiro 16, 2014

TUPINIQUIM

[...] quando conheci a escritora e jornalista  portuguesa Alexandra Lucas Coelho no Rio de Janeiro, em 2010,  apelidou-me de imediato de Dylan Thomas:

"Dylan Thomas apareceu na praia. Chamaram-me, voltei a cabeça, e era a cara dele à minha frente, com aquele topete de caracóis e sem álcool. Dylan Thomas aos 20 anos."

soube depois, quando já havia criado um personagem para suas crônicas no jornal O Público, agora reunidas no livro Vai, Brasil (Tinta da China, 2013), publicado em Portugal. ela me achava parecido com o poeta inglês.

achei engraçado, fui rever a imagem do poeta. há semelhança, o cabelo ondulado e o olhar triste, um pouco mais gordo talvez. ao apelido acrescentei um sobrenome: Tupiniquim.

"O Dylan Thomas que batizei na praia agora assina Dylan Tupiniquim. Brasileiro não teme deixar de o ser, ao comer o outro fica mais forte. Antropofagia é fusão, seria a saída para israelitas e palestinos."

no Brasil, tive a alegria de receber esta portuguesa-carioca com a benção dos Orixás: na praia de Ipanema com Yemanjá e na Floresta da Tijuca com Oxóssi e Oxum.

"Dylan Tupiniquim me abriu as magias..."

e você, caríssima Alexandra, com sua brincadeira me fez reler os versos do poeta idolatrado pela geração beat: "não entre tão depressa nessa noite escura" – se tornou meu mantra.

feliz com sua passagem pelo Brasil (em breve ela retorna a Portugal, infelizmente), sigo seus passos na escrita, trilha amorosa do presente. já estou com saudades de sua amizade que tanto me enriquece; admiro e me encanto por sua paixão pela literatura.


amor, Ramones, seu Dylan Thomas Tupiniquim.

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2014.


ps: com meu bigode, como você percebeu, estou agora mais para "Chico Buarque fase-bigode" anos 70.

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Uma linda homenagem
MARIA FORTUNA [O GLOBO, GENTE BOA]
13.02.2014 

Adriana Calcanhotto chegou ao encontro com a professora de literatura Cleonice Berardinelli, anteontem, na Casa do Saber O Globo, vestindo smoking. Era uma referência ao traje usado pelo poeta português Mário de Sá-Carneiro no dia de sua morte. A obra do escritor era o tema do recital que reuniu as duas. 

O evento foi apresentado pelo jovem poeta Ramon Nunes Mello, que tinha o sonho de reuni-las para homenagear o escritor, já que Dona Cleo é uma grande estudiosa de sua obra. Adriana Calcanhotto, também fã confessa, musicou alguns de seus versos.

Ramon estava eufórico. “Não acreditei quando elas toparam”, diz ele. “É um sonho reunir essas duas grandes damas, da literatura e da música brasileira, em torno do poeta português, de ‘de mãos longas e lindas / que ninguém quer apertar...’”




Depois da leitura de “Um grande poeta — pobre menino infeliz”, Dona Cleo recitou versos e se emocionou durante a leitura de “Quase” (“Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído”).

“Desculpe a explosão de emoção, esses versos me tocam profundamente”, disse a professora, de 97 anos, enxugando as lágrimas. Ao intercalar a leitura com poemas musicados, Calcanhotto finaliza dizendo: “Preciso tomar Red Bull para acompanhar Dona Cleo”.





***



Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro
“Dispersão” (1914)






quinta-feira, fevereiro 06, 2014

sempre vou ficar com a imagem do Eduardo Coutinho lendo seus jornais na extinta livraria Ponte de Tábuas, no Jardim Botânico. luz, mestre!


[foto: Gabriel Pardal]
das surpresas felizes:

meus livros de poemas "Vinis mofados" e "Poemas tirados de notícias de jornal" são objetos de pesquisa da dissertação de mestrado de Luciano Motta na Universidade Federal Fluminense (UFF): "Ressonâncias literárias e midiáticas na poesia de Ramon Mello". a defesa será dia 10 de março de 2014, às 14h.

FRAGMENTOS DE UM AUTO-RETRATO AOS 29 ANOS


Quando acordo, sempre penso que eu poderia ser outra pessoa. A época também poderia mudar, conforme meu humor. Ao escovar os dentes os pensamentos intrusos desaparecem, estou repleto deles, aceito cada apresentação cotidiana. Vontade obsessiva de criar outros eus. Observo minha morte todos os dias, em cada linha que se forma no esboço de um sorriso. Ou melhor, minhas mortes. Escrevo, cometo pequenos suicídios no decorrer da manhã, logo após o café. Normal. O fim faz parte / o que é vivo / por ser vivo / contrai, descontrai / e morre / ela me disse. Escrever poemas dói, insisto apesar de. Pessoas especiais morrem no dia do nascimento, não será o meu caso. Silêncio. Batizei um dos meus gatos de Silêncio para me lembrar disso. Passo a maior parte do dia calado, sem música – valorizo a quietude dos objetos, dos livros. À noite, para dormir ouço mantras, ou cantos indígenas. Tenho muitas manias, só me desfaço delas quando percebo que se tornaram obrigação. Mania não é obrigação, é mania mesmo. Anotar num caderno trecho de livros possíveis, a primeira frase de um romance inacabado: É perigoso quando o espírito inquieto passeia assim pelo espaço, fica sempre ligado aos sentidos por um laço secreto. Mania. Também gosto de comprar edições autografadas de escritores que admiro. Mania. Sou esquisito. Eu sei. Não sou fácil. Difícil é eu mesmo me aguentar. Tem dia que tenho vontade de sair do corpo, por isso medito diariamente. Um vazio sinistro. Fico quieto esperando o coração acalmar, nem sempre é possível. O que fazer com tanta inquietude? Por um coração que compreenda, repito. A meditação me trouxe a fé. Ou será o contrário? Tenho muita fé, na vida e na arte. Encarando a angústia, motivos humanos passam a ocupar meus vazios. Quem disse que seria fácil o retorno de Saturno? Além de dois gatos, tenho dois livros de poemas publicados e um livro de contos auto-rejeitado. Estou escrevendo o terceiro livro de versos: “a vida efêmera dos peixes de aquário”. Ah, quando mudar para uma casa maior, quero adotar outro gato, branco. Ou, quem sabe, uma lebre que mia. Seria interessante a lebre miando entre os livros, subindo na estante de poesia. Pretendo finalizar o primeiro romance aos 30 anos, promessa interior. E, antes disso, apresentar o infantil “a menina que queria ser árvore”. Sempre quis ser árvore, mas nunca quis ser menina. Gosto de ser homem, e amo homens autênticos. Interesso-me mais por pessoas solidárias do que inteligentes, observo. No mais, tenho preguiça de preconceito, e pessoas que falam em excesso. É sempre complicado falar de mim, fico perdido em labirintos, deixo os outros constrangidos. Prefiro falar sobre sonhos que surgem quando estou presente, agora por exemplo.


Ramon Nunes Mello
Rio de Janeiro, 04 de janeiro de 2014.

[Texto escrito para o "Projeto Autoretrato", de Renan Nazzos e Sandra Alvarez]

Di Couto - Ipanema, Rio de Janeiro

AMPLIANDO A CONSCIÊNCIA POLÍTICA

paz sem fronteiras_ramon mello_credito alissonsilverio

“Que tempos são esses em que é necessário defender o óbvio?”
Bertold Brecht
Felizmente a vida surpreende, estamos despertando de um sono profundo. A população – principalmente o estudante, vanguarda das transformações sociais – está nas ruas do Brasil clamando por mudança, a maioria de forma pacífica, ampliando a consciência política. E violência e vandalismo? Reflexo da desigualdade em que vivemos, não faz parte do grito de paz do povo que ecoa pelo país.
Neste novo tempo só acredito em revolução relacionada com a paz – a maior transformação que podemos realizar. Tente fazer algo, qualquer coisa que seja, sem paz. Impossível. Alguns indivíduos consideram anacrônica (ou até ingênua) a cultura da paz. Como se o movimento de pacificação estivesse dissociado da reflexão crítica. Talvez porque essa palavra esteja esgarçada pelo uso, como diz a poeta Viviane Mosé sobre a necessidade de ressignificação de algumas palavras e conceitos no livro ‘Receita para lavar palavra suja’. Sejamos paz, então, em nossas ações, diariamente.
Falo de um estado de harmonia, onde os opostos se equilibram. Quem está acostumado a meditar com freqüência ou praticar a espiritualidade (não falo de religião, é bem diferente) consegue vislumbrar esse estado com mais facilidade, aquietando a mente e o coração. Isso está muito além de sentar em posição de lótus. Não se trata de inércia, pelo contrário, movimento contínuo, ação em harmonia. É preciso disposição para pacificar-se, ainda mais num mundo em que a cultura da guerra e violência está em nosso cotidiano. Impossível? Não. É um desafio, possível e gratificante.
Sempre me considerei uma pessoa engajada, principalmente por aprender ainda menino lições de política com meu pai. Descobri cedo que o poder quando mal usado pode causar estragos. E quando fui estudante da Escola Estadual de Teatro Martins Penna e me tornei presidente do Grêmio Renato Vianna aprendi muito sobre democracia. No entanto, a palavra paz não se encontrava no meu dicionário. Ou, estava lá, e eu a ignorava. Hoje posso afirmar que faz muita diferença pensar e exercitar a política pelo prisma da paz.
“A Paz é barulhenta”, costuma afirmar Ana Vitória Monteiro, fundadora da Ong Paz Sem Fronteiras. De fato, é verdade, podemos constatar nas ruas, nas postagens das redes sociais, nas matérias de jornais e televisão. Os milhares de cidadãos que estão indo às ruas desejam um mundo em paz, com menos desigualdade social. Esse pedido de paz está presente nos diversos cartazes como “Fora Feliciano!”; “Pare Belo Monte!”; “ Fora Renan Calheiros!”; “Reforma política!”… Qual ser humano que não deseja paz para sua vida? Desconheço.
Participei de diversas passeatas em 2013. Levei para uma delas (na Presidente Vargas, Rio de Janeiro, no dia 17/06, que reuniu mais de 100 mil pessoas) um cartaz onde estava escrito: PAZ SEM FRONTEIRAS. Foi interessante observar a surpresa das pessoas, pediam para fotografar/filmar o cartaz. Paz é o que mais desejo nesse momento de transformação. Que tal começar essa mudança em nós mesmos? Praticar o que exigimos nos cartazes que levantamos nas ruas? Ética, cidadania, solidariedade, amor, respeito ao próximo, e paz.
No yoga esse almejado estado de paz chama-se ahimsa – uma espécie de fio dourado que conduz a prática, traçado pelo cultivo da não-violência e do respeito a si e aos outros. Que possamos recriar nossa realidade, ancorando a paz em nós para que então se instaure no mundo.
Ramon Nunes Mello
Rio de Janeiro, julho de 2013.