terça-feira, junho 16, 2015

NOTAS DE UM ENCONTRO COM A FUNDADORA E DIRETORA DO THÉATRE DU SOLEIL




O Oi Futuro Ipanema realizou ontem (22/06/2015) um encontro da fundadora e diretora do Théâtre du Soleil, Ariane Mnouchkine, com uma plateia de 50 artistas - aproveitando sua passagem pelo Brasil para participar do ciclo de encontros ‘Ato criador’, que ocorre hoje, terça-feira, 23/06/2015, Biblioteca Parque Estadual (Av. Presidente Vargas 1.261, Centro - Rio de Janeiro).

1. Ao lado de sua companheira, a atriz Juliana Carneiro da Cunha, e de um jovem tradutor, Ariane Mnouchkine aguardava a entrada do público sentada no proscênio. O encontro foi apresentado pelo Gerente de Cultura do Oi Futuro, Roberto Guimarães e pela curadora do ciclo ‘Ato Criador’, Ana Lucia Pardo, que chamou o encontro de “bate-bola”.

2. A expressão “bate-bola” provocou risos em Ariane, que arriscou repetir a expressão em português carregada de sotaque francês: “bate-bola”. Disse que esperava que o público pudesse “pegar a bola” no ar.

3. Inúmeras vezes Ariane interrompeu o jovem tradutor para que fosse fiel às suas palavras. Embora não fale português com fluência, a diretora do Soleil esforça-se para se compreendida na gênese de sua fala. Por vezes, Juliana também interrompia o tradutor para fazer uma correção e outra. Por fim, até a plateia mais íntima do francês, sentia-se à vontade para corrigir rapaz, nitidamente nervoso.

4. Ariane começou falando da sua mais recente criação, “Macbeth”, de Shakespeare: “As urgências desfilam na minha cabeça”.

5. Sobre a expressão “ato criador”, Ariane resolveu problematizar: “Talvez, sobre o ato criador, essa interrogação que propomos discutir coletivamente, temos que entender o caráter de urgência. Por que Camboja e não Argélia? Por que Iraque e não Síria? É com isso que os artistas se defrontam. Os demônios são incontáveis”.

6. “Porque o criador é deus. Se existir um Deus.”

7. Pauster que era sábio: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

8. De que forma os acontecimentos do mundo afetam o Théâtre du Soleil? “Não sei. Eu nunca sei como será o próximo espetáculo.”

9. “Urgência não quer dizer colado com a realidade, é mais profundo que isso”, pontua Ariane, instaurando um clima de suspense na plateia. Quando o técnico do teatro pergunta se alguém tem mais uma pergunta, Ariane se incomoda: “Não interrompa. Deixem as pessoas refletirem e sentirem vontade realizar mais perguntas.” Ariane Mnouchkine preza o tempo de reflexão da plateia.

10. O que é o teatro? “O Teatro não é um supermercado. Teatro é o Palácio das Maravilhas. O público deveria entrar num teatro como quem entra no ‘Palácio das Maravilhas’.

11. É possível mudar o mundo. Só mudamos o mundo através de um pequeno exemplo. O que é o Théâtre du Soleil no mundo? Nada. Grande como um micróbio. Mas podemos mudar o mundo.

12. Qual sua reflexão sobre o teatro no Brasil? “Sou ignorante demais sobre a riqueza do teatro brasileiro. O que sei é que as pessoas de teatro no Brasil são tristes e assustadas. Não sei como conseguem sobreviver nessas condições.”

13. Ainda sobre a situação dos artistas: “O ideal é que exista um pacto entre os artistas. Um pacto de direitos e necessidades. Isso é muito complicado, a situação é muito difícil. Na Europa (digo França e Alemanha) a situação é difícil. Mas em comparação ao Brasil é um privilégio”.

14. Devemos relembrar a frase de Churchill, durante 2ª Guerra Mundial: “Se vamos cortar tudo da Cultura, por que vamos fazer a guerra?”

13. “Economia criativa? Não entendo. Uma economia que não seja destrutiva já é alguma coisa”.

14. Repito sempre o provérbio: “O tempo se vinga daquilo que fazemos sem ele”.

15. Sobre os Jogos Olímpicos: “Não. Não são os jogos olímpicos que vão mudar o mundo”.

16. “As melhores perguntas são aquelas que fazemos a nós mesmos”.

17. Uma pergunta que me faço constantemente: “Será que vamos reencontrar o teatro? Não sei. Ensaiamos muito, mas há ensaios em que não acontece teatro. Será que os deuses do teatro nos abandonaram? Todos têm o mesmo temor: Será que vai ter teatro?”.

18. “Meu papel, enquanto diretora, é que os atores tenham tempo para atuar bem. Gosto da expressão ato criador”.

19. Quantas horas de ensaio? Juliana Carneiro responde: “Dezesseis horas”. Ariane fica vermelha, e tenta se defender, aos risos: “São pequenos rituais”.

20. “Que ator me faz feliz? Quando ele está transfigurado. Atores me deixam feliz quando encontram um poço sem fim. Juliana, que aqui está, é esse tipo de ator, que está sempre em busca de poços sem fim.”
21. “Quando olho para minha trajetória, vejo que há coerência. Mas não há essa consciência no momento presente. O que tenho a impressão de ter vivido e estar vivendo? Muito afeto, risadas, chateações, amor, risadas... A impressão que estou construindo algo com amor.”

22. Por fim, pergunto: Diante de tantos desencantos no mundo, gostaria de saber o que no Brasil lhe causa encantamento? “Só de pensar, tenho vontade de chorar. A gentileza dos brasileiros. Ao mesmo tempo acho que são gentis demais. Vocês têm uma paciência quase angelical.”

23. “Como na história judaica, sejamos os melhores da rua. Sendo os melhores da rua, seremos os melhores do mundo”.

Em tempo, há dois excelentes livros para quem deseja conhecer mais o pensamento de Ariane Mnouchkine: “Encontros com Ariane Mnouchkine - erguendo um monumento efêmero”, de Josette Féral – Tradução de Marcelo Gomes (Editora Senac SP / Edições Sesc SP, 1995) e “A arte do presente: Entrevistas com Fabienne Pascaud”, tradução de Gregório Duvivier (Editora Cobogó, 2005).

Rio de Janeiro, 15 de junho de 2015.

Ramon Nunes Mello

sexta-feira, junho 12, 2015

A IMPORTÂNCIA POLÍTICA DE COPI



Neste tempo triste em que acompanhamos o drama da Verônica Bolina (transexual agredida por policiais a ponto de ter o rosto desfigurado), a OCUPAÇÃO COPI no Espaço Sesc em Copacabana - a partir da obra do argentino Raúl Damonte Botana (1939-1987), conhecido pelo pseudônimo de Copi - além de fundamental, é um ato político: fortalece o debate sobre identidade sexual e intolerância.
Merece atenção a montagem da companhia Teatro de Extremos que apresenta o texto inédito no Brasil, escrito em 1971 por Copi: “O Homossexual ou a Dificuldade de se Expressar” (tradução de Giovana Soar), dirigida por Fabiano de Freitas, com atuação intensa de Higor Campagnaro, Leonardo Corajo, Mauricio Lima, Fabiano de Freitas, e Renato Carrera - que se destaca pelo primor da construção da personagem. Os personagens travestis (Irina, Madre, Nikita, Sra Simpson) são marcados pela ironia e escatologia. A peça é uma mistura de melodrama e absurdo, que literalmente faz o espectador rever a própria existência.
Também no Espaço Sesc está a montagem do monólogo tragicômico “A Geladeira” (tradução de Maria Clara Ferrer), dirigido Thomas Quillardet, com atuação de Márcio Vito. No texto, um homem, no dia do seu aniversário, acorda e encontra um refrigerador no meio da sala do apartamento. Assim, se desenrola a cena marcada pelo absurdo que Copi nos apresenta. Marcio Vito é um ator virtuoso que se desdobra em vários personagens, entretanto a concepção de direção de Thomas Quillardet não favorece sua atuação. A sensação é de que falta ritmo ao espetáculo, e também cores para o delírio dos personagens de Copi.
Vale lembrar, o ator Fernando Fecchio estreou em novembro de 2014 em São Paulo esse mesmo texto de Copi - "A Geladeira". Fiquei com vontade de conferir a encenação. E também interessado em ler o romance "O Uruguaio", lançado recentemente no Brasil pela editora Rocco com tradução do poeta Carlito Azevedo. A propósito, um imenso agradecimento pesquisadora Renata Pimental pela dedicação em trazer a obra de Copi para conhecimento dos brasileiros.
Rio de Janeiro, 12 de junho de 2015.
Ramon Nunes Mello

INTIMIDADE COM A POESIA CABRALINA



Há 10 anos acompanho a Cia de Teatro Íntimo, de Renato Farias, que tem a ousadia de levar a literatura para o palco – tarefa árdua, pois dramatizar as palavras de poetas e escritores não é para qualquer um. Neste tempo, assisti à encenação de textos de Caio Fernando Abreu, Adélia Prado, Oscar Wilde, e tantos outros autores que povoam meu imaginário.
Com talentosos atores, vivenciei experiências inquietantes como espectador: “Os Dragões” (2005 – Ah, Fernanda Boechat!), “Viridiana e eu” (2006), “Cuidado com o Cão” (2007), “Degustação Poética” (2008/22009), “Histórias da Democracia” (2008/2009), “Adélia” (2010), “8 Solos Acompanhados” (2011), “Dorian” (2012), “Ere, Piá, Curumim” (2013) e, agora, a primorosa montagem “João Cabral”, que encerra temporada no Espaço Sesc em Copacabana e segue para a Sede das Cias na Lapa.
A mais recente montagem da companhia traduz o resultado de uma década de pesquisa sobre o casamento da literatura com o teatro. A vantagem está no amadurecimento da direção de Renato Farias e do trabalho dos atores que prezam pela intimidade com o interlocutor. O poeta João Cabral de Melo Neto (injustamente considerado difícil pelos leitores) ganha mais humanidade na atuação certeira de Caetano O’Maihlan, Rafael Sieg, Raphael Viana e Gaby Haviaras. A única mulher do espetáculo apresenta um trabalho delicado e firme, como a poesia de Cabral, principalmente nas cenas em que dança flamenco com os atores, um dos momentos emocionantes da encenação.
A dramaturgia mistura cartas de Cabral, trechos de depoimentos e versos famosos de “O cão sem plumas”, “Morte vida severina”, “Os três mal-amados”, “Primeiros poemas”, “Sevilha andando” e outros livros do "poeta-engenheiro". Emoldurando o espetáculo, a direção de arte e figurino de Thiago Mendonça, o visagismo de Ezequiel Blanc e a cenografia de Melissa Paro se unem para valorizar as palavras de Cabral e suas “ideias fixas”: o rio Capibaribe, Recife, Sevilha, a cana, a faca, a arquitetura, a mulher, o amor...
A “poesia do menos” de João Cabral é compreendida por todos, e o resultado é a composição de um espetáculo preciso, na medida exata do poeta: “puro sol em si”.
Rio de Janeiro, 07 de junho de 2015.
Ramon Nunes Mello