sexta-feira, junho 12, 2015

INTIMIDADE COM A POESIA CABRALINA



Há 10 anos acompanho a Cia de Teatro Íntimo, de Renato Farias, que tem a ousadia de levar a literatura para o palco – tarefa árdua, pois dramatizar as palavras de poetas e escritores não é para qualquer um. Neste tempo, assisti à encenação de textos de Caio Fernando Abreu, Adélia Prado, Oscar Wilde, e tantos outros autores que povoam meu imaginário.
Com talentosos atores, vivenciei experiências inquietantes como espectador: “Os Dragões” (2005 – Ah, Fernanda Boechat!), “Viridiana e eu” (2006), “Cuidado com o Cão” (2007), “Degustação Poética” (2008/22009), “Histórias da Democracia” (2008/2009), “Adélia” (2010), “8 Solos Acompanhados” (2011), “Dorian” (2012), “Ere, Piá, Curumim” (2013) e, agora, a primorosa montagem “João Cabral”, que encerra temporada no Espaço Sesc em Copacabana e segue para a Sede das Cias na Lapa.
A mais recente montagem da companhia traduz o resultado de uma década de pesquisa sobre o casamento da literatura com o teatro. A vantagem está no amadurecimento da direção de Renato Farias e do trabalho dos atores que prezam pela intimidade com o interlocutor. O poeta João Cabral de Melo Neto (injustamente considerado difícil pelos leitores) ganha mais humanidade na atuação certeira de Caetano O’Maihlan, Rafael Sieg, Raphael Viana e Gaby Haviaras. A única mulher do espetáculo apresenta um trabalho delicado e firme, como a poesia de Cabral, principalmente nas cenas em que dança flamenco com os atores, um dos momentos emocionantes da encenação.
A dramaturgia mistura cartas de Cabral, trechos de depoimentos e versos famosos de “O cão sem plumas”, “Morte vida severina”, “Os três mal-amados”, “Primeiros poemas”, “Sevilha andando” e outros livros do "poeta-engenheiro". Emoldurando o espetáculo, a direção de arte e figurino de Thiago Mendonça, o visagismo de Ezequiel Blanc e a cenografia de Melissa Paro se unem para valorizar as palavras de Cabral e suas “ideias fixas”: o rio Capibaribe, Recife, Sevilha, a cana, a faca, a arquitetura, a mulher, o amor...
A “poesia do menos” de João Cabral é compreendida por todos, e o resultado é a composição de um espetáculo preciso, na medida exata do poeta: “puro sol em si”.
Rio de Janeiro, 07 de junho de 2015.
Ramon Nunes Mello

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