sábado, março 06, 2010

GULLAR 8.0


Ferreira Gullar é homenageado na Casa do Saber

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo)

Ao lado Antonio Carlos Secchin e Adriana Calcanhotto, o poeta Ferreira Gullar participou da homenagem organizada pela Casa do Saber do Rio de Janeiro para celebrar seus 80 anos de vida.

Com o auditório lotado, o diretor da Casa do Saber, Armando Strozenberg, iniciou a celebração dando boas-vindas aos convidados e afirmando que Gullar o “ensinou que a vida sem arte não existe”. Em seguida, dedilhando o violão, Adriana Calcanhotto cantou o poema ‘Traduzir-se’, do livro Na Vertigem do Dia, de Gullar:

Uma parte de mim / é todo mundo: / outra parte é ninguém: / fundo sem fundo // Uma parte de mim / é multidão: / outra parte estranheza / e solidão. // Uma parte de mim / pesa, pondera: / outra parte / delira. // Uma parte de mim / almoça e janta: / outra parte / se espanta. // Uma parte de mim / é permanente: / outra parte / se sabe de repente. // Uma parte de mim // é só vertigem: // outra parte, / linguagem. // Traduzir uma parte / na outra parte / — que é uma questão / de vida ou morte — /será arte?

Ao fim da música, coube ao poeta e acadêmico Antônio Carlos Secchin apresentar Ferreira Gullar e sua obra. O texto lido por Secchin foi escrito para ocasião da candidatura do poeta ao Prêmio Nobel de Literatura, em 2002.

“Antes fazer essa leitura, quero dizer que verifiquei no Google: Gullar tem milhões com referências ao seu nome. Um poeta brasileiro com essa quantidade enorme de referências não pode ser pouca coisa.”, disse Secchin.

Visivelmente emocionado, Ferreira Gullar leu seus poemas prediletos para a platéia. E, antes de cada leitura, Gullar falava sobre gênese dos poemas. As histórias, que resumiam fatos cotidianos, revelaram a grandeza do poeta diante de seus “espantos”.

“A poesia nasce do espanto. Uns poemas nascem da reflexão, outros do acontecimento.”, disse o poeta ao falar sobre o nascimento de um poema, que surgiu ao olhar uma foto aérea da sua cidade natal quando trabalhava como editor de uma revista de arquitetura no Rio.

Ao falar sobre o poema ‘A Casa’, escrito no Brasil e reescrito em Moscou, Gullar afirmou: “A vida é uma invenção”. Os versos foram reescritos porque, ao sair do país, o poeta achou que tivesse perdido o papel. Mas ao retornar para casa descobriu que o poema descansava na gaveta.

A criação de um belo poema, partindo ou não de uma realidade inventada, pode surgir de um simples cheiro de uma flor ou uma fruta:

“Desde criança como tangerina e o cheiro dela me persegue. O cheiro me remetia a algo escondido. Eu queria escrever um poema, mas não tinha o que escrever. Escrever o que? ‘A tangerina é bonita’? Não. Fui pesquisar, descobri que tangerina é a laranja da China. Até que o poema começou a nascer de uma frase: ‘Com raras exceções, os minerais não tem cheiro’. Percebi o nascimento e comecei a escrever. Temos de ficar atentos ao nascimento do poema”, afirma Gullar e completa:

“Sabe quando escrevi ‘Nasce o poema’? Eu estava numa entrevista quando uma repórter me perguntou: ‘Como nasce o poema’? Comecei a explicar e percebi que estava nascendo o poema. Terminei a entrevista e fui para casa escrever o poema que estava nascendo.”

Um dos momentos mais bonitos da leitura de Gullar foi com o poema ‘Meu Pai’: meu pai foi / ao Rio se tratar de / um câncer (que / o mataria) mas / perdeu os óculos / na viagem // quando lhe levei / os óculos novos / comprados na Ótica / Fluminense ele / examinou o estojo com / o nome da loja dobrou / a nota de compra guardou-a / no bolso e falou: // quero ver / agora qual é o / sacana que vai dizer / que eu nunca estive / no Rio de Janeiro.

Ao anunciar “o último poema com historinha”, Gullar relembrou em versos o artista plástico Iberê Camargo. O poeta ficou amigo de Iberê após a tragédia que ocorreu nos anos 80: “O Iberê saiu para rua, à procura de uma loja de cartões natalinos, e quando parou numa esquina de Botafogo para assistir a discussão de um casal. O marido se irritou. Iberê sacou a arma e matou o homem.”

A pedido de Antonio Carlos Secchin, Gullar leu o famoso poema ‘Cantiga para não morrer’, mas antes brincou: “Mas a Claudia está na platéia”., referindo-se a companheira Claudia Ahimsa que assistia a cerimônia. O poema foi escrito para uma mulher que conheceu quando estava exilado na Rússia.

Seguindo a leitura, Adriana Calcanhotto cantou o poema, que musicou com o nome de ‘Me Leve’: Quando você for se embora, / moça branca como a neve, /me leve. / Se acaso você não possa / me carregar pela mão, /menina branca de neve, / me leve no coração. // Se no coração não possa / por acaso me levar, / moça de sonho e de neve, / me leve no seu lembrar. // E se aí também não possa / por tanta coisa que leve / já viva em seu pensamento, / menina branca de neve, / me leve no esquecimento.

Secchin perguntou a Calcanhotto: “Como você conheceu a poesia de Gullar?”

“Minha mãe é professora e dava aula de manhã, de tarde e de noite. Então, ela só descansava depois do almoço – no momento que eu tinha que lavar louça. Ou seja, eu tinha que lavar louça sem fazer barulho. Desenvolvi uma técnica: ligava o rádio, baixinho. Assim que conheci o Gullar, numa canção. E depois na televisão, ele dizia loucuras. Gullar mudou minha vida.”

E, depois da conversa, Adriana cantou ‘Um gato chamado gatinho’, poema de Gullar, musicado para o show Adriana Partimpim. “O poeta é autor de literatura infanto-juvenil, mas quando lida com as crianças fala dos bichos. Drummond com os elefantes, Cecília com as borboletas e Gullar com os gatos, bichos domésticos.”, afirmou Secchin.

Há 11 anos sem publicar um livro de poemas, Ferreira Gullar leu poemas do livro inédito Em alguma parte alguma, que será publicado pela editora José Olympio.

“A poesia custa a nascer, não é que eu esteja trabalhando os poemas há 11 anos. Há poetas que conseguem trabalhar um tema, mas eu não sigo esse caminho. Como tudo é inventado, o espanto é interpretado a partir da minha visão de vida. Uma parte do livro é sobre o mistério do mundo. A idéia de ordem e desordem está presente. Meu livro novo abre com um poema intitulado ‘Fica o não dito por dito’. Ou seja, o que tenho de dizer não está no livro.”, brinca o poeta antes de ler poemas inéditos.

Conduzindo o término do encontro, Secchin pediu que Gullar contasse a história do ‘Trenzinho Caipira’, poema feito a partir de ‘Bachianas No 2’ de Villa-Lobos.

“Demorei 10 anos para fazer esse poema. Essa era a música que eu ouvi numa viagem de trem com meu pai. Eu queria fazer o poema para ele. Mas só fiz o poema quando estava exilado, escrevendo O ‘Poema Sujo’. Deixei da máquina, ouvi o disco do Villa-Lobos que carregava comigo e escrevi o poema."

Simulando o som de um trem nos acordes da guitarra, Adriana Calcanhotto cantou o 'Trenzinho Caipira'. Gullar, muito emocionado, ouvia de olhos fechados e mãos entrelaçadas. A platéia aplaudiu finalizando o encontro. Gullar: “Um violão substitui uma orquestra”.

As homenagens não terminaram, Calcanhotto pediu para cantar uma música atual, celebrando o Gullar de hoje, 'Definição da moça' – letra feita a partir do poema que Gullar fez para a esposa Claudia Ahimsa.

Como defini-la / Quando está vestida / Se ela me desbunda / Como se despida? // Como defini-la / Quando está desnuda / Se ela é viagem / Como toda nuvem? // Como desnudá-la / Quando está vestida / Se está mais despida / Do que quando nua? // Como possui-la / Quando está desnuda / Se ela toda é chuva? / Se ela toda é vulva?

“Temos que aproveitar que a musa está na platéia”, disse Calcanhotto.

Armando Strozenberg encerra brindando com os convidados: “Vamos lançar aqui o movimento FGA: Ferreira Gullar na ABL!”

>> Assista à entrevista exclusiva com o poeta Ferreira Gullar no SaraivaConteúdo:

HELÔ 7.0

Heloisa Buarque de Hollanda entrevistada por Edney Silvestre no programa Espaço Aberto, da GloboNews. Edição com imagens raras dos poetas Cacaso e Ana Cristina Cesar lendo seus poemas.


sexta-feira, março 05, 2010

COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ


[clique na imagem para ampliar]

A editora Record vai lançar a antologia Como se não houvesse amanhã, na qual 20 escritores fãs da Legião Urbana escolheram uma música preferida e fizeram um conto. A organização é do poeta Henrique Rodrigues.

Dentre os autores, Miguel Sanches Neto, Marcelo Moutinho, Tatiana Salem Levy, Wesley Peres, Manoela Sawitzki, Maurício de Almeida e eu Ramones.

Renato Russo faria 50 anos dia 27 de março.

quarta-feira, março 03, 2010

LEMBRANÇA DO BOITATÁ



[peter pan e a bailarina de vermelho - 14 de fevereiro, domingo, aniversário do ramones - praça xv, boitatá, bloco do chupa aqui!]

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

CEM PORCENTO POESIA


A virtude de ser inútil

Por Ramon Mello

Há quem se surpreenda ao descobrir que os documentários Fábio Fabuloso (2004) e Só Dez Porcento é Mentira (2008) foram dirigidos pelo mesmo cineasta: Pedro Cezar. O que tem a ver poesia e surfe?

“Quem pega onda olha a vida do ponto de vista do horizonte e lida com ninhos de água. Quem gosta de poesia também olha a vida do ponto de vista do horizonte e também lida com ninhos de água. Fabio Gouveia e Manoel de Barros são poetas. O primeiro escreve no mar sem partir a linha e o segundo diz que ‘imagens são palavras que nos faltaram’ Os dois produzem encantamentos e nos fazem transver”, afirma o cineasta, que pega onda desde os 10 anos e é autor de dois livros de poesia: Puizía e Concepção de Frases em Ninhos de Água.

A transição de um filme para outro - “se houve foi fluida, tranqüila” - moldou o olhar de Pedro Cezar, capaz de captar instantes preciosos de personagens que fazem do dia-a-dia mais do que uma simples repetição de fatos. A prova desse ponto de vista está no cinema, num filme definitivo sobre a vida do poeta Manoel de Barros: Só Dez Porcento é Mentira - a “desbiografia” oficial de um dos principais poetas contemporâneos.

“O filme prioriza eventos desimportantes, iluminuras, ‘reino da despalavra’, escamas das horas, ‘pétalas das ondas’ e comparecimento aos desencontros. O filme deliberadamente exclui datas cronológicas, batizados, formaturas e bodas de ouro. Chamamos a esse tipo de narrativa, ‘desbiografia’. ‘Transver’ a obra nos pareceu mais adequado do que enumerar datas e informações biográficas.”

O título do filme refere-se a uma frase do poeta: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira". As palavras de Manoel de Barros conduzem a narrativa ao ‘reino da despalavra’. É com as palavras de Manoel de Barros escritas na tela, que o diretor captura o espectador/leitor logo no primeiro frame do longa:

“Há várias maneiras de não dizer nada. A poesia é uma delas”.

Aos poucos, o poeta permite ser desvendado. Mas, antes disso, o diretor teve o trabalho de convencê-lo a aceitar o projeto do filme. Conta a lenda que, por mais de 70 anos, o poeta deu entrevistas somente por escrito. Manoel de Barros só concordou em participar das filmagens depois de inúmeras visitas da equipe à fazenda, em Corumbá. Fazer o poeta falar não é tarefa para qualquer pessoa, um mérito incontestável. Pedro Cezar ficou durante dias insistindo, mas o poeta era categórico: "sou um ser letral" ou "o melhor de mim é a minha obra e ela está à sua disposição". Quando o cineasta desistiu, alegando que a idéia não se passava de um “sonho”, o poeta resolveu participar da história.

Para amarrar a narrativa poética, o filme é recortado por depoimentos de artistas que tiveram seu trabalho enriquecido pelas palavras de Manoel de Barros: a atriz e poeta Elisa Lucinda; a poeta e filósofa Viviane Mosé; a atriz e jornalista Bianca Ramoneda, que encenou Inutilezas; o cineasta Joel Pizzini, que fez o curta Caramujo flor (1988); e o escritor e jornalista Fausto Wolff – falecido em setembro de 2008 – lembra que “o mundo precisa dos poetas”. A escolha dos depoentes nem sempre é escolha fácil, principalmente quando se trata em apontar “pessoas que são ‘órgãos extensivos’ do idioleto Manoelês”.

“Até hoje fico confuso se boto o feijão por cima ou o arroz para cobrir. Isso sem falar da farinha. Seria uma tremenda injustiça esquecê-la. O processo de escolha foi fruto de pesquisa, empatia, logística, várias entrevistas e muitos testes de elenco. Fui atrás de pessoas que eu sabia que tiveram suas vidas transformadas pela leitura dos versos do Manoel.”, explica o diretor.

Manoel de Barros começou a publicar em 1937, com Poemas concebidos sem pecado. Mas só ficou conhecido nos anos 80, quando Millôr Fernandes começou a publicar poemas de Manoel nas colunas nas revistas Veja, IstoÉ e no Jornal do Brasil. Outros intelectuais apostaram no poeta, entre eles Antônio Houaiss. Manoel tem mais de 20 livros publicados e, dentre os mais conhecidos, Compêndio para uso dos pássaros; Livro sobre nada; Gramática expositiva do chão e Arranjos para assobio.

Mas, a que se deve a popularidade do poeta? Pedro Cezar arrisca uma resposta:

“Teve uma época que desejei ardentemente ter um livrinho meu prefaciado pelo Manoel. Ele deu um toque melhor que qualquer prefácio. Me disse: "o único cartão de visita de um poeta é o que ele escreve". A popularidade do Manoel se deve exclusivamente a qualidade absurda de seus versos. Ele começa com maiúscula e termina com ponto final mas no miolo coloca encantamentos próprios e linguagem única. Manoel não virou letra de música que toca em rádio, não está na mídia e nem tem ex-mulheres gritando nos jornais atrás de pensão indenizatória. Mesmo assim, quem pega um livro dele se sente aditivado e sai por aí repassando seus versos. Isso é incrível. Cada leitor de Manoel o multiplica tal qual o milagre dos peixes.”, conclui.

No filme, durante a conversa com Manoel de Barros, o cineasta pergunta: “Pra que serve poesia?” O poeta dá uma risada e diz:

“Essa pergunta já foi feita”. Em seguida, completa: “Poesia é a virtude de ser inútil”.

A partir dessa declaração, o diretor elabora a definição do seu filme: “É longa-metragem concebido e realizado por uma equipe de desocupados da área audiovisual que documenta a longa trajetória de aquisição do ócio do poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros”.

“Pra que serve poesia?”, repito a pergunta ao diretor.

“Essa pergunta é inesgotável. E ao mesmo tempo, irrespondível. Mas vou tentar assim mesmo: poesia serve pra fazer o tempo andar de costas. Melhor dizendo... poesia serve pra fazer o tempo não se dar conta. ‘Desexplico’: tem um peixe bem grande que fica escondido debaixo da quina do horizonte. Toda vez que alguém faz um poema, o peixe pisca pras nuvens e sopra uma onda em direção à vida. A onda anda e nem se percebe. Sorte de alguns surfistas. Ou de certos poetas."

O documentário foi produzido entre 2005 e 2008, em parceira com Kátia Adler e Marcio Paes. Estreou no Festival do Rio de 2008 e levou o prêmio de melhor documentário na segunda edição do Festival Paulínia de Cinema 2009. Depois de cumprir o maior ciclo possível de viagens e festivais, distribuído em formato digital, o filme está exibido em apenas duas salas no Rio de Janeiro (Unibanco Arteplex e Cine Santa Teresa) – antes ficou em São Paulo, com matérias e críticas elogiosas em jornais.

“Muito filme pra pouca sala!!!”, esperneia Pedro Cezar.

Só Dez Porcento é Mentira fica para a história para revelar a alma de Manoel de Barros, assim como a obra do poeta. Está em cartaz até o dia 28 fevereiro.

[Texto publicado originalmente no portal Cultura.RJ, da Secretaria de Cultura do Estado]

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

DESTINO POESIA

"Às vezes, a melhor maneira de interpretar um poema é escrever outro poema. Imprescindível pra curtir poesia da melhor forma é fazer leituras em voz alta dos poemas que preferimos ou daqueles que precisamos entender melhor. Ler um livro de poesia é sempre reler os poemas que nos agradaram numa primeira folheada básica. Ler poesia deve ser feito de maneira respirada, a intervalos. Não se lê um livro de poesia como um romance - leitores de poesia têm de poder embaralhar a ordem de leitura, começando, se quiserem, pelo meio, pelo fim, ou simplesmente indo e voltando.”

Ítalo Moriconi, trecho da apresentação da antologia Destino Poesia (José Olympio), que reúne os poetas Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

2.6

Julia Breckenreid

O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO?

"Estou (re)lendo o livro Vinis Mofados, escrito pelo jornalista e ator Ramon Mello. Ramon pertence à novíssima geração de poetas inquietos e talentosos, ao lado de nomes como Augusto Guimaraes Cavalcanti e Bruna Beber. Destaco em seu texto o trabalho cuidadoso e produtivo com a linguagem, a extrema sensibilidade com as imagens e a afirmação de uma póetica que transita entre a tradição e a inovação."

Júlio Diniz
Diretor do departamento de letras da PUC-Rio

[Jornal do Brasil, Idéias - 13.02.10]

domingo, fevereiro 07, 2010

MORO NA ROÇA

[Clementina de Jesus]



[Mônica Salmaso]



Moro Na Roça

Composição: adaptação de tema popular de Xangô da Mangueira e Zagaia

Eu moro na roça iaiá
Eu nunca morei na cidade
Eu compro jornal da manhã
É pra saber das novidades

Eu moro na roça iaiá...

Minha gente cheguei agora
Minha gente cheguei agora
Minha gente cheguei com Deus
E Nossa Senhora

Eu moro na roça iaiá...

Xique Xique Macambira
Filho de Preto d'Angola
Inda bem não sabe ler
Já quer ser meste de escola

Eu moro na roça iaiá...

Era tu e era ela
Era ela era tu e eu
Hoje nem tu nem ela nem ela
nem tu nem eu

Eu moro na roça iaiá...

sábado, fevereiro 06, 2010

SEBOS, MARES, DIÁRIOS

Encontrei meu livro num sebo. É uma sensação estranha, ainda não sei explicar. Não fiquei triste, não é um sebo qualquer, é o Berinjela – um dos sebos mais charmosos do Rio, fica no subsolo de um prédio comercial no Centro, vizinho da livraria Leonardo da Vinci e do café Gioconda. Almoço por ali, toda semana, por causa do trabalho, sempre faço uma horinha no sebo e/ou na livraria. Não resisti, perguntei se meu Vinis Mofados ainda estava por lá. Sim, estava. Um exemplar de imprensa, não lido. Fiquei em dúvidas de comprá-lo: R$ 17. Nas livrarias ele custa R$ 25. Decidi deixá-lo ao acaso, à espera de um possível leitor.

Freqüento muitos sebos, meus prediletos são o Baratos da Ribeiro (Copacabana) e o Luzes da Cidade (Botafogo) e o Mar de Histórias (Copacabana), além do Berinjela. Sinto muito prazer em descobrir edições raras ou, simplesmente, esbarrar com um livro desconhecido. Outro dia, encontrei Como você se chama?, do escritor Raimundo Magalhães Jr., autor da biografia do poeta Casimiro de Abreu. Esse livro é incrível, trata-se de um longo ensaio sócio-psicológico de prenomes e cognomes, publicado em 1974. Esse exemplar foi pescado no Luzes da Cidade, enquanto eu esperava a sessão do filme Erva Daninha, de Alain Resnais. Assim que terminar a leitura do livro, vou escrever sobre os tais nomes. Drummond era aficionado pelo assunto, sabia?

Voltando ao Berinjela, garimpei o Diário Completo (José Olímpio Editora) do escritor Lúcio Cardoso, uma edição de 1970, que pertenceu à "Biblioteca de Esmeralda S. R. de Oliveira", adquirido no “Natal de 1971”. Há um lindo poema do Drummond, escrito quando Lúcio teve o derrame fatal, publicado no Correio da Manhã no dia 20 de setembro de 1968:

A LÚCIO CARDOSO, NA CASA DE SAÚDE
Carlos Drummond de Andrade

Entre visitas que perguntam
no corredor, por tua vida
de artista recolhido à noite
sensorial, entre amigos
que se inclinam preocupados
sobre a cisterna, e não distinguem
Teu reflexo brilhar no fundo,
Entre os mais próximos e diletos
- eu não estou, porém de longe
mais perto me sinto e decifro
melhor teu perfil na sombra,
e o perfil não só; tudo mais
que deu sentido a teu chamado
à rua dos homens: palavras
tramadas em papel, soando
em palco, problemas falantes,
movediços em preto-e-branco,
projeção em tela ou parede,
em cor quase som, mensagens
da mais subterrânea estação,
retratos espectrais do ser
para além da radiografia,
e um hálito de amor pedindo
espaços claros, praias de ouro
que se vão modelando em sonho
acordado, escrito, pintado.
Respiras, falas, comunicas-te
à revelia do corpo enfermo
em tudo que é sinal; contemplo
tua vida primeira e plena
a circular, transfigurada,
ó criador, entre vazios
sótão da casa abandonada

Se não fosse o livro da Esmeralda, talvez, eu não conhecesse o poema, que tem os sete últimos versos sublinhados. O que mais adoro nos livros usados são os comentários nas bordas das páginas, as frases sublinhadas, as dedicatórias... Meus livros são todos rabiscados, caneta ou lápis, não importa. Deixo a marca da leitura, assim me surpreendo nas releituras.

Quando entro num sebo, sempre me lembro do romance De cabeça Baixa (Guarda-Chuva), de Flávio Izhaki. Você gosta de sebo? Leia: "Na história contada por Flávio, o protagonista, Felipe Laranjeiras, encontra seu romance, Desencanto, num sebo em Curitiba – lugar escolhido de ‘exílio’ pelo personagem, após o fracasso do primeiro livro e de um relacionamento amoroso. As páginas do exemplar encontrado estão cheias de anotações críticas. Quem escreveu os comentários? Essa pergunta seduz o leitor e o caminha para uma narrativa angustiante e bem estruturada.", escrevi esse texto quando entrevistei Izhaki para o blog Click(In)Versos, em 2008.

Ao chegar em casa, com o diário de Lúcio nas mãos, postei a seguinte frase no Facebook:

"não admito vida longe do mar"

Moro em Copacabana, mas acho que mergulhei em tudo isso por saudade de Araruama, do passado. Uma de minhas lembranças mais felizes: o acampamento em Praia-Seca, com meu pai e meu avô, catando tatuí na areia. E, memória recente, a saudade da alegria efêmera dos fins de semana em Ilha Grande, deitado no píer.

Enfim, abri o diário de Lúcio Cardoso na página 12 e li o quarto parágrafo:

"o mar, a proximidade do mar torna as coisas mais limpas.", agosto de 1949.

O acaso?

Freqüentar sebos é resgatar passados, mesmo que não sejam nossos.


>>> Sobre Lúcio Cardoso:

Fragmentos do documentário Lúcio Cardoso, de Eliane Terra e Karla Holanda:




Homenagem a Lúcio Cardoso, em Curvelo, Minas Gerais:

terça-feira, fevereiro 02, 2010

ODÔ IYÁ, IEMANJÁ!



leia.

CULTURA.RJ

estreou o Cultura.rj, portal da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro:

www.cultura.rj.gov.br

estou na equipe do portal com José Emílio Rondeau, Ana Madureira de Pinho, Teresa Karabtchevsky e Mila Chaseliov. trabalho como repórter.

o espaço está aberto a colaborações de todos os envolvidos com as diversas manifestações artísticas do Rio, de produtores culturais a cidadãos ligados no que acontece em seu município.

na Revista, no Banco de Cultura, nos Espaços Culturais e na Programação Cultural qualquer usuário pode postar textos, fotos, vídeos, músicas - e fazer comentários sobre o material publicado.

basta preencher um cadastro simples, AQUI!


domingo, janeiro 24, 2010

RASCUNHO ou ESTUDO SOBRE GARATUJA

antes
de perceber
sua existência entre
livros quando (ainda)
éramos dois um simples
desenho infantil não
significava nada hoje
garatuja é
poesia


POESIA DE DOMINGO

desde outubro de 2009, todo domingo, estou publicando poemas no Blog de Letras do site SaraivaConteúdo.

a idéia é um plágio (autorizado!) do blog Caquis Caídos da escritora Adriana Lisboa, que publica todo-santo-sábado poemas de diversos autores.

estreei o POESIA DE DOMINGO com um poema inédito de Adriana Lisboa, feito a partir de uma canção de Ronaldo Miranda chamada Cantares:


quando não se espera que ele venha
usando outra palavra certa
que talvez não seja essa, puída,
amor
mesmo que larga
como a brisa imaterial da madrugada
quando não se espera que ele
amor
supostamente calmo e sem pernoites
venha mal-dormido
sem dicionário ou crachá
mais feito de olhar que de contato
quando não se espera por
nenhum de seus sinônimos?
(íncubos, avatares, falsos milagres)
ele surge à porta
no meio da festa
sem contentamento
sem merecimento
sem futuro nem presente nem passado
puro e tonto
como as aves imigrantes sem pousada


desde então, publiquei poemas de Manoel de Barros, Paulo Leminski, Antonio Cicero, Simone Magno, Hilda Hilst, Eucanaã Ferraz, Augusto de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Heitor Ferraz Mello, Gonçalo M. Tavares, Viviane Mosé...

neste domingo postei FICOU BONITO O MEU DESENHO, PROFESSORA?!, de Nicolas Behr. leia, aqui!

no Sorriso, deixo um soneto de Rainer Maria Rilke, traduzido por Manuel Bandeira:


TORSO ARCAICO DE APOLO

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

terça-feira, janeiro 19, 2010

HELP!

A Embaixada da República do Haiti está arrecadando doações em dinheiro. Para colaborar, podem ser feitos depósitos ou transferências de qualquer banco, mesmo de fora do Brasil, para a conta corrente abaixo:

Embaixada da República do Haiti
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1606-3
CC: 91000-7
CNPJ: 04170237/0001-71


O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) também recebe doações só em dinheiro. A entidade não recebe outros tipos de doações em função da dificuldade de enviá-las ao país.

Dados para depósitos ou transferências:

Comitê Internacional da Cruz Vermelha
Banco: HSBC
Agência: 1276
CC: 14526-84
CNPJ: 04359688/0001-51


O Viva Rio, que está desde 2004 no Haiti, onde desenvolve projetos sociais ligados às áreas de segurança, desenvolvimento e meio ambiente, também abriu uma conta para quem quer fazer doações às vítimas do terremoto:

Viva Rio
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1769-8
CC: 5113-6
CNPJ: 00343941/0001-28




segunda-feira, janeiro 18, 2010

SOUZA LEÃO


O esquizoide

A editora Record começa a publicar nos próximos meses os livros inéditos do escritor Rodrigo de Souza Leão, falecido em 2009 numa clínica psiquiátrica no Rio. Entre os títulos estão O esquizoide e Me roubaram uns dias contados. Ramon Mello, organizador da obra de Rodrigo, pretende utilizar pinturas do escritor nas capas dos livros.

[gente boa, o globo - 18.01.10]

domingo, janeiro 17, 2010

JORNAL DA UNIÃO, PARAÍBA


Por Leonardo Davino

Destacar os melhores de 2009 não é tarefa fácil. Mas dou minha contribuição, neste período de balanços e expectativas, apontando o que continuará (me) tocando em 2010.

Na música tivemos: Pelo sabor do gesto, disco que confirma Zélia Duncan como uma das cantoras que melhor sabe escolher repertório; Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, de Otto, é um objeto híbrido capaz de amalgamar vários matizes do experimento cancional; além do denso e redentor Zii e Zie, de Caetano Veloso; e do avassalador Maria Alcina confete e serpentina, da sempre fulgurante Maria Alcina.

Entre as exposições, frente ao luto pelo incêndio que destruiu parte do acervo de Hélio Oiticica: Obranome II reuniu os mais significativos objetos da poesia visual do Brasil; Pierre et Gilles - a apoteose do sublime trouxe alguns bons exemplos da obra da dupla francesa; e Vertigem, dos gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo, mostrou a união do grafite com o realismo fantástico típicos dos irmãos.

Já no cinema, alheio à invasão dos vampiros, 2009 teve: o bonito Milk, com um competente Sean Penn; o diagnóstico preciso de Entre os muros da escola; e o inquietante e pop (500) dias com ela. Por aqui, Coração vagabundo, Palavra(en) cantada, Dzi Croquettes e Simonal - ninguém sabe o duro que dei se destacam entre os documentários (categoria reinante) que retrataram figuras e épocas que contribuem para a riqueza da canção e da cultura brasileiras. Mas, certamente, o velhinho Carl Fredricksen, de Up - altas aventuras, roubou a cena.

Na literatura, tivemos o lançamento de Vinis mofados, o aguardado livro de poesia de Ramon Mello. Além de registrar como o diálogo entre canção e poesia é muito tênue, o autor consegue, através de versos rápidos (mas demonstradores de boa lapidação), imprimir o cotidiano de forma tão prazerosa (mesmo com dor) que a vida parece mesmo valer a pena; além do livro Entre milênios, reunião póstuma dos escritos de Haroldo de Campos, que mostra o mestre atento ao novo e à tradição.

Mas entre as surpresas de 2009 (ano do centenário de Carmen Miranda), Sílvia Machete é rainha. Com presença e voz marcantes, suas bolhas de sabão fizeram o ano passar mais leve.

A outra impactante surpresa foi ouvir Pedro Miranda. Sua voz (com algo de Clementina de Jesus) é forte e doce, cheia de tradição, mas sem se desconectar de seu tempo. O cd Pimenteira é o melhor (pela revelação) de 2009.


sábado, janeiro 16, 2010

MÚSICA DE SÁBADO

ESTRELA DE OXUM, na voz de MÔNICA SALMASO
Composição: Rodolfo Stroeter e Joyce

Maracatu
Oiô
Mandô
Chamá
Bandeira pião bandeira
Estrela da vida inteira
Mucama da saia grande
Saiu pra cantar
A voz ecoou brejeira
Na mata, na cachoeira
A noite foi abraçando
O véu do luar
No chão de areia branquinha
Pisada pequenininha
O canto da ribeirinha
Fez tudo acordar
Oxum despertou sorrindo
Gostou do que estava ouvindo
Cantou seu canto mais lindo
Brincando de acompanhar
Bandeira pião bandeira
Cansada da brincadeira
Estrela de Oxum faceira
Dormiu de tanto cantar

sexta-feira, janeiro 15, 2010

quarta-feira, janeiro 13, 2010

COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ

A editora Record vai lançar a antologia Como se não houvesse amanhã, na qual 20 escritores fãs da Legião Urbana escolheram uma música preferida e fizeram um conto. A organização é do poeta Henrique Rodrigues.

Dentre os autores, Miguel Sanches Neto, Marcelo Moutinho, Tatiana Salem Levy, Wesley Peres, Manoela Sawitzki, Maurício de Almeida e eu Ramones.

Renato Russo faria 50 anos dia 27 de março.



[sereníssima]

terça-feira, janeiro 12, 2010

MEGAZINE



LIQUIDIFICADOR
André Miranda & Télio Navega

CADÊ OS MORANGOS?

A poesia pode ser um elemento cotidiano e a partir de um rapaz de Araruama que se conecta com o mundo através dos blogs. Em Vinis mofados (Língua Geral), Ramon Mello escreve dois lados de poesia, como num disco. No lado A, diz em Phono 00: "ipod ligado/listening to ramones/e dançando a vida" No B, complementa em Cartilha: "não/se aproxime/estou/(entre/parênteses)". O título é uma referência ao livro Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu.

[megazine, o globo - 12.01.2009]

domingo, janeiro 10, 2010

CON TODA PALABRA

Adiós, Lhasa de Sela.

A cantora Lhasa de Sela morreu sexta-feira, dia 08 de janeiro, aos 37 anos, vítima de cancro da mama, em Montreal.




Con Toda Palabra
Lhasa de Sela

Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia

Me acerco al agua
Bebiendo tu beso
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo

Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo

Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma

Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia

Me acerco al fuego
Que todo lo quema
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo

Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo

Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma






De Cara a La Pared
Lhasa de Sela
Composição: Lhasa de Sela / Yves Desrosiers

Llorando
de cara a la pared
se apaga la ciudad

Llorando
Y no hay màs
muero quizas
Adonde estàs?

Soñando
de cara a la pared
se quema la ciudad

Soñando
sin respirar
te quiero amar
te quiero amar

Rezando
de cara a la pared
se hunde la ciudad

Rezando
Santa Maria
Santa Maria
Santa Maria

sábado, janeiro 09, 2010

A ARTE DE PERDER

Por Elizabeth Bishop

Uma Arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

[tradução do poeta Paulo Henriques Britto]


One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster

sexta-feira, janeiro 08, 2010

PRENEZ SOIN DE VOUS

menina de nove anos, via sms: “esse cara se acha! isso é muito triste”

[exposição 'cuide de você', de sophie calle]

quinta-feira, janeiro 07, 2010

AS CANÇÕES

O coração necessita de afinação como os rádios.
Por vezes, em simultâneo, escutamos duas canções,
e uma perturba a outra,
e não é bom para os ouvidos.
Mas qual o botão que afina o coração?
Não é assim tão fácil.

[in Observações, 1 - Gonçalo M. Tavares. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.]

terça-feira, janeiro 05, 2010

VINIS NO TRIBUNA


A POESIA MUSICAL DE RAMON MELLO
Livro de estreia do poeta carioca reúne influências musicais diversas


Não estranhem o mofo do título, caros leitores: referência explícita a Caio Fernando Abreu. O conteúdo é poesia vivíssima, ágil, certeira, like a rolling stone. Se pedras que rolam não criam limo, poesia também. O primeiro poema do livro é dedicado a Waly Salomão, desde sempre apaixonado por livros e literatura (Cesta básica, o poema, ligeiro, fala justo dessa paixão), o que mostra o bom acompanhamento do poeta que ao longo de sua estreia presta ainda outros tributos.

Vinis mofados [2009, 94p., Língua Geral, coleção Língua Real, R$ 25,00 no site da editora], de Ramon Mello é, como entrega o título, um livro cheio de referências musicais. Inclusive dividido em lado a e lado b. O autor, nascido em Araruama em 1984, já é da geração do moribundo CD (e mp3, mp4, download etc.), mas traz, neste belo livro-álbum, uma interessante coleção de um pouco de tudo, matéria-prima de sua boa poesia, não confundir simplicidade com facilidade.

"resolvi organizar/ a bagunça na estante:// palavras empoeiradas/ fotografias letras de/ música vinis mofados// e uma coleção de/ romances fracassados", o poema-título (Vinis mofados, p. 68). Na homenagem a cidade natal, um dos poucos poemas sem explícita referência musical, ele escreve: "bebedouro de araras e/ (alguns) políticos corruptos" (Araruama, p. 25). Não fossem as aves, o poeta poderia ter nascido em qualquer lugar e ainda assim parido este poema.

Aproveitem a promoção: "baratos da ribeiro/ promoção do dia:// elis regina richard/ strauss (zaratustra)/ beatles gal fa - tal// tudo por cinco real" (Sebo, p. 38). Sua poesia, observações (o autor é jornalista), é feita de sentimentos. Uns doem: "toca discos com/ agulha quebrada/ livros encaixotados// gato persa deprimido/ vomitando mudanças/ saudades e bolas de// pelo piano de parede/ mudo chorando/ ausência dos seus// dedos firmes viris/ enquanto escrevo/ versos inúteis" (Partitura, p. 74).

Do alto de sua juventude o que Ramon Mello faz é tirar a poeira e o mofo de seus vinis-poemas, colocando-os na vitrola-olhos-mentes-corações-dos-leitores para tocá-los.


segunda-feira, janeiro 04, 2010

MEUS FAVORITOS

a jornalista e poeta simone magno perguntou sobre os livros que marcaram minha vida. humm, difícil. mas resgatei maria vai com as outras, de sylvia orthof e longa vida, de armando freitas filho.


OS LIVROS DA MINHA VIDA

Por Simone Magno

O quadro desta semana é com o jornalista e escritor Ramon Mello, uma das melhores surpresas de 2009. Ele estreou com o livro de poesia Vinis mofados (Língua Geral) e ainda organizou o livro de memórias de Heloisa Buarque de Hollanda, Escolhas (Língua Geral) e a antologia digital Enter.

Tempo de Letras – Qual o primeiro livro que marcou sua vida?

Ramon Mello – A leitura de Maria vai com as outras (Ática), de Sylvia Orthof, não sai da minha cabeça até hoje. Os desenhos da própria autora também são inesquecíveis. Li o livro quando cursava a alfabetização no Colégio Araruama, por indicação da professora “Tia Naia”. A ovelha Maria, protagonista da história, era uma mesmo maria-vai-com-as-outras, mas um dia percebeu que o melhor era fazer o próprio caminho. Não há metáfora melhor para a vida. Acredita que ainda folheio as páginas do livro? É uma alegria, sempre.

TL – Qual o livro que mais mexeu com você?

RM – Longa vida (Nova Fronteira), de Armando Freitas Filho, publicado em 1982. A capa do livro é do Rubens Gerchman e o prefácio da Ana Cristina César. Descobri o exemplar no sebo da Livraria Leonardo Da Vinci exatamente quando me preparava para entrevistar o “poeta-referência”. Armando tem uma simplicidade impressionante na escrita, ele consegue transformar o cotidiano em poesia. É um livro fundamental na minha vida.

TL – O que você está lendo agora?

RM – Neste momento, leio Me roubaram uns dias contados, romance inédito do poeta Rodrigo de Souza Leão, falecido em julho do ano passado. Sem dúvidas, Rodrigo é um dos autores mais originais que surgiu nos últimos anos. Basta ler Todos os cachorros são azuis para comprovar o que digo.



PROSA &VERSO


[o globo 02.01.2010]

não estou plenamente de acordo com a análise comparativa do jornalista doutor - principalmente quando se refere ao formato sistematizado, bolor no 'morangos' e carioquismo excessivo.

tudo muito confuso.

mas valeu, a bunda está na janela.

"toda unanimidade é burra", disse tio nelson.

LETUCE, PISCINA HAIKAI

não consigo parar de ouvir a banda letuce!

letícia novaes é esquisita e interessante, impossível não acompanhá-la.

copiei a letra da minha música preferida no ouvidômetro. não sei se a estrutura está correta, mas vale o registro:

PISCINA HAIKAI
Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos

eu desmorono
cê extrapola

vai cair, vai cair

que dia que cai?
que dia que cai?

eu estipulo
cê escapole

vai sair, vai sair

que dia haikai
que dia haikai
piscina haikai

vai sair, vai sair

que dia haikai
que dia haikai
piscina haikai

eu queria saber que dia cai o carnaval
o carnaval cai que dia?

o peito cai
o pinto cai
a bolsa cai

o peito cai
o pinto cai
a bolsa cai

uma estrela cai
um balão cai
o meu queixo cai

quando você sai







AME E DÊ VEXAME

"Há momentos em que se sente que a vida pode ter fim antes da morte da gente"

Roberto Freire



quinta-feira, dezembro 31, 2009

sábado, dezembro 26, 2009

sexta-feira, dezembro 25, 2009

SE TUDO PODE ACONTECER



show de lançamento do DVD do filme 'Palavra (En)Cantada', auditório Ibirapuera, São Paulo - 02.12.09

VINIS MOFADOS EXTRAI POESIA DOS DISCOS

Numa clara referência - e reverência - ao clássico dos anos oitenta Morangos Mofados, obra-prima do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996), o poeta Ramon Mello extrai poesia do universo dos discos em Vinis Mofados, seu primeiro livro de poemas (editora Língua Geral, R$ 25,00).

Numa espécie da Alta Fidelidade tupiniquim, a ideia aqui é falar de amor mesclando música e jargões da indústria fonográfica, desde a era de ouro dos LPs até hoje.

Não por acaso, o livro está dividido em Lado A e Lado B. Entre os 70 poemas, alguns evocam o universo do disco já nos títulos (Faixa 4, Bônus Tracks, Phono - 00, Faixa Arranhada, Hidden Tracks, Single, MP4 Player).

É tocar, ou melhor, ler para crer.

BR Press - Yahoo! Notícias - Terça-feira, 24 NOV/2009

VALE ATÉ MENTIR

Por Bernardo Scartezini

Ramon Mello tem 25 anos e está lançando seu primeiro livro. Bruna Beber tem 25 anos e está lançando seu segundo livro. O rapaz e a moça escrevem poesia, são poetas. Ambos ganham belos volumes. Bruna & Ramon têm em comum, fora a idade e o bom trato com as palavrinhas, uma decisiva influência da cultura pop. O ouvido de Bruna acolhe o trovador Neil Young e o breguita Benito Di Paula num mesmo universo de referências. Bruna, no livro Balés, mostra ouvido apurado para a melodia dos versos e olhar atento de cronista. O poema Rua da Passagem fica assim: O beijo que espero virá/ da colisão das retas/ paralelas// a caminho da festa/ banho de lama/ na minha melhor roupa// de raspão passará como tiro/ em quem está ao lado/ esperando o ônibus. Ao se saber que ela escreveu esses versos quando morava no Rio e andava de transporte público, s e percebe a herança daquela poesia imediata, cotidiana, de Manuel Bandeira, Mario Quintana e Oswald de Andrade. Também é imediata e urgente a escrita de Ramon Mello em Vinis mofados, acenando, logo de saída, a Caio Fernando Abreu (de Morangos mofados). Tome Segredo para exemplo: Organize a vida/ num pedaço de guardanapo// depois guarde no bolso/ da calça jeans (ellus ou lee)// dizem que angústia/ se perde no vazio dizem. Também fica impresso nas páginas de Ramon & Bruna o espírito aberto da poesia dos anos 1970, 1980 de gente-como-a-gente, como Cacaso e Chacal. Não por acaso a coleção Língua Real, da editora Língua Geral, foi aberta com um poeta daquela geração, Nicolas Behr, nascido em Cuiabá e amadurecido em Brasília. Laranja seleta é uma compilação de poemas antigos e inéditos. Behr está à vontade na companhia de novos e jovens autores. Assim, ele te apresenta esta Laranja: Trinta anos atrás, eu tinha 18 anos. Nunca mais vou ter 18 anos. Nunca mais vou ter o furor de e screver Chá com porrada. O crescimento é inexorável. Mas continuo cheio de dúvidas, cheio de conflitos. Não tenho certeza de nada. As matrizes que permanecem são as da rebeldia. Da não-aceitação de regras prontas para a poesia. Poesia não aceita camisa-de-força. Na poesia vale tudo, até mentir.

Correio Brasilense
Brasília, segunda-feira, 07 de dezembro de 2009

VINIS MOFADOS

Ramon Mello lança seu primeiro livro de poemas

Por Herbert Bastos

Ator, jornalista e poeta. Ou seria ator e jornalista? Ramon Mello nunca desejou ser poeta, embora lesse muita poesia e autores como Caio Fernando Abreu, ouvisse desde sempre muita música popular brasileira e ensaiasse pequenas prosas na adolescência. As coisas na vida dele aconteceram mais ou menos assim: vem de Araruama-Região dos Lagos- para o Rio de Janeiro aos 18 anos para estudar teatro na Martins Pena; Divide apartamento pelo menos umas oito vezes desde que se mudou para o Rio; Faz vestibular para universidades federais, até cair no curso de jornalismo de uma Universidade em Ipanema.

Com o curso, ele consegue alguns trabalhos que o possibilitam uma independência financeira, coisa tal... Mas não é isso que importa agora. O mais importante a ser dito é que Ramon Mello está lançando pela editora Língua Geral o seu primeiro livro de poesia, o Vinis Mofados. O livro surgiu no meio do caminho em que Ramon escrevia o romance All Star Bom é All Star Sujo, que está sendo lapidado com mais tranqüilidade pelo autor neste momento, como um lugar de conforto para ele dizer e viver o que quiser.

Pra quem nunca pensou em ser escritor e poeta, processo que fatalmente atores/jornalistas acabam passando, Ramon Mello mostra o som da sua poesia e toda sua sensibilidade em Vinis Mofados. A cada poema a gente fica sabendo quem são os autores que influenciaram a poesia de Ramon e quem são artistas preferidos: seja por dedicação de poemas a Maysa e Waly Salomão, por exemplo, ou referências direta a Lenine, Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Nara Leão, Fernanda Takai e outros mais.

Tudo isso além de expor suas preferências de vida, seus amores e decepções posteriores, sem ter receio do que pensariam sobre ele posteriormente a leitura de seu primeiro livro de poemas música. Por escrever poesias sem ponto e sem vírgula, os leitores de Vinis Mofados podem ter uma interpretação diferente do que Ramon escreveu, uma leitura que de repente o próprio autor desconheça a possibilidade, uma poesia que o próprio autor não saiba que existe dentro da poesia dele. Ou seja, poemas que podem ser re-inventados a cada leitura, independente do que Ramon quis propor de imediato.

WTN em Cena

segunda-feira, dezembro 21, 2009

AUTO-SABOTAGEM

"tendência a se repetir, indefinidamente, atitudes destrutivas"

RESOLUÇÕES DE ANO NOVO


em 2010:

1 - voltar a fazer análise (urgente!)

2 - novamente fazer a inscrição na ioga (não adianta pagar a mensalidade e não frequentar as aulas)

3 - parar de fumar (mantra: "o cigarro parece meu amigo, mas é meu inimigo")

4 - meditar diariamente (esquece o cigarro: respire, beba água...)

5 - caminhar no calçadão, mergulhar no mar, tomar banho de cachoeira (uma vez por semana, no mínimo)

6 - trabalhar mais nos projetos pessoais (cadê o romance?)

7 - evitar festinhas-pé-na-jaca (quem teve hepatite não deve beber, lembre-se)

8 - visitar mais meus pais em araruama (não fique no computador)

9 - exercitar: a serenidade, o autocontrole e a paciência (questão de sobrevivência)

10 - relaxar (ouviu? relaxe)


sexta-feira, dezembro 18, 2009

segunda-feira, dezembro 14, 2009

ESCOLHAS

foto: Tomás Rangel






Heloisa Buarque de Hollanda acaba de lançar Escolhas: uma autobiografia intelectual (Língua Geral e Carpe Diem). Leia a introdução a seguir:

HELÔ 7.0

Ramon Mello

“O que leva uma renomada professora de setenta anos, com mais de quarenta e cinco anos de magistério, entregar a organização de sua biografia a um jovem poeta?”, foi o que me perguntei ao longo da organização deste livro. E ainda busco a resposta.

Através da poeta Maria Rezende e do cineasta Murilo Salles, tive o privilégio de conhecer a professora Heloisa Buarque de Hollanda, num debate sobre o universo dos blogs, o Blografias. A ocasião não poderia ser mais adequada, já que se trata de uma intelectual inquieta, curiosa com a produção contemporânea.

A certeza do nosso encontro (e não de um esbarrão) fez com que a confiança mútua resultasse numa profícua troca de idéias. Logo trabalhamos juntos. Primeiro no Portal Literal e depois na realização de ENTER - Antologia Digital. Com um misto de medo e admiração, tive a ousadia de propor a Heloisa Buarque a publicação de uma biografia intelectual no ano de comemoração de seus setenta anos. Sem hesitação, Helô aceitou.


Por sugestão do escritor Bernardo Carneiro Horta, biógrafo de Nise da Silveira, apresentei a idéia ao editor da Língua Geral, Eduardo Coelho, responsável pela estruturação do projeto. Escolhas — título criado por Heloisa — é um livro-memória sobre a trajetória da mais “antenada” intelectual brasileira. Uma “contemporânea da contemporaneidade”, como bem a definiu Luiz Ruffato.

A primeira parte do livro é composta pelo memorial apresentado por Heloisa Buarque ao departamento de Teoria da Comunicação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro para o concurso de provimento do cargo de professor titular no setor Teoria Crítica da Cultura, em 1993. Através de uma narrativa biográfica, Heloisa passeia por fragmentos de memórias para estruturar formalmente seu trajeto intelectual. Episódios de infância, a relação com os livros, as aulas, tudo é esmiuçado com rigor e afeto.

E a segunda parte é um texto atual de Heloisa, escrito a partir de mais de oito horas de entrevistas realizadas em seu apartamento no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro. Os encontros foram aulas sobre cultura brasileira — a cada dia uma descoberta, fragmentos da memória aos poucos se transformavam numa emocionante história. Um inesquecível aprendizado. Por fim, a conversa serviu apenas como guia do texto final que Heloisa escreveu para o segundo capítulo de sua biografia, revisitando pontos importantes do memorial e analisando os temas que estão despertando seu interesse, principalmente a internet e a periferia.

O resultado são dois relatos, que juntos podem nos dar a dimensão do trabalho intelectual desenvolvido por Heloisa Buarque de Hollanda. A crítica da literatura Beatriz Resende, ex-aluna de Heloisa, herdeira do interesse pelos “sinais de turbulência” em nossa cultura, assina a apresentação do livro. Além de analisar o depoimento, Beatriz relata a experiência de compartilhar a trajetória profissional ao lado de Heloisa. Um diálogo textual sobre o nobre ofício do magistério e idiossincrasias do universo acadêmico, um relato apaixonante sobre o ensino no Brasil.

A orelha do livro, assinada por Zuenir Ventura (amigo de longa vida de Heloisa) é um dos raros momentos em que, mesmo em eterno movimento, Heloisa é “fotografada” com precisão. O texto foi originalmente escrito para o prêmio Mulher do Ano, do Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, em dezembro de 1993, após o resultado do polêmico concurso para professor titular da UFRJ.

A produção deste livro só foi possível com a parceria e estímulo de diversos profissionais, como o fotógrafo (marido de Heloisa) João Horta; as editoras Carolina Casarin, Connie Lopes e Elisa Ventura; os produtores Marcio Debellian, Suely Abreu e Valeska Zamboni; o professor Nonato Gurgel; as jornalistas Ana Arruda Callado, Ana Madureira e Teresa Karabtchevsky; e a pesquisadora Uyara Louzada — que mergulhou na Biblioteca Nacional para encontrar as matérias sobre o concurso da UFRJ.

É necessário também agradecer a gentileza dos funcionários do CEPDOC dos periódicos Jornal do Brasil (Elaine Loss), O Globo (Marcos Alexandre Mulatinho e Andréa Moraes da Hora) e Jornal do Comércio (Nathália Gomes). Além dos jornalistas Luiz Noronha e Geneton Moraes Neto,que autorizaram, pessoalmente, a publicação de matérias. E, ainda, ao Instituto Carpe Diem, representado por Antônio Campos, pela coedição que recebeu ainda o apoio de Lula Arraes.

De forma simples e eficaz, uma rede enorme de amigos de Heloisa contribuiu para o resultado final desse trabalho. Heloisa Buarque planejou sua notável carreira seguindo o amor e a poesia. Incansável, dedicou sua vida à palavra. Um legado que nos permite entender a poesia brasileira, o olhar feminino na sociedade, a relação da literatura na web e a atuação da periferia nos campos culturais.

Dialogando com Murilo Mendes, compreendi que para Heloisa Buarque de Hollanda “é muito difícil esconder o amor/ a poesia sopra onde quer”. Ou melhor, a poesia está em cada página.


> Leia um trecho da autobiografia de Heloisa Buarque no Saraiva Conteúdo e no Portal Literal.



> Assista à entrevista com Heloisa Buarque no SaraivaConteúdo:



sábado, dezembro 12, 2009

O MOÇO DA CAPA



"quem fez a capa do vinis mofados?"

o designer (e escritor) fabiano vianna é o responsável.

a foto é de japa biet.

marco novack é o produtor (ator e fotógrafo) que encontrou a vitrola.

"quem é o moço na capa do livro? é você?"

não.

é o ator, autor e diretor de teatro ANDY GERCKER, um especialista em caio fernando abreu. olha o moço no espetáculo coração de gás neon, em foto de andrea paccini:



>>> leia os textos de andy gercker no blog um coração neon.

TAXI

, e esse sotaque?

do maranhão.

terra do gullar...

não! terra daquele fdp do sarney.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

RAMONES NA ROLLING STONE


[clique na imagem para ampliar]

POESIA MUSICADA

Uma aposta no íntimo diálogo entre poesia e música

Por Maurício Duarte

Um livro de um poeta estreante é sempre uma busca. E a obra nasceu de um diálogo entre música e literatura, explícito no título, que junta os vinis com o clássico Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. A estrutura da obra é dividida como em um disco. No Lado A, há uma procura por desvendar o enigma da palavra, o modo como ela se relaciona com o organismo do poema, como nos versos de "Dicionário" ou "Impressão". É ali que Ramon nos apresenta sua preocupação mais formal, seu catálogo de intenções. No Lado B, o autor dá as caras de maneira mais desabrida, sem medo de se expor. Ramon se coloca como parte integrante do poema com toda a carga emocional que tal opção estilística pode carregar. Vemos dores de cotovelo, rompimentos e um certo cinismo com os caminhos do amor e da vida, como em “Faixa Arranhada” ou “Doida Canção”. Tudo repleto de referências ao mundo moderno, à cultura pop, à MPB, ao blues e ao computador – há um ótimo poema em linguagem de MSN. É um início e, como todo começo, deixa brechas, sinaliza melhoras. Mas, ao mesmo tempo, nos deixa querendo mais. Basta seguir a trilha sonora proposta por Ramon.

Entrevista – Ramon Mello

Fale um pouco de seu processo de criação.
Não consigo entender a arte sem diálogo. Assim é com a música e a poesia. Quando penso em nossos intelectuais, não me lembro dos acadêmicos ou imortais. Vibro ao saber que minha formação passa por músicos e compositores como Caetano Veloso, Renato Russo, Maria Bethânia, Lirinha, Marina, Arnaldo Antunes, Tom Zé. E junto tudo isso com a obra de Caio Fernando Abreu, que era um apaixonado por MPB. Vinis Mofados é resultado da conversa de uma vitrola 78 rotações com uma caneta Bic.

Então, o que influencia mais você?
A vida. Leio muito mais do que ouço música, mas não entendo maior influência de uma determinada área. O respeito que tenho quando ouço uma música do Chico Buarque é o mesmo ao assistir a uma peça do Zé Celso ou ao ler um livro da Cecília Meireles. A questão está na palavra, ela costura minha identidade. Escrevo muito a partir do amor intenso e da desilusão.

Por que a obsessão com o vinil?
Não é obsessão, mas relação afetiva. Gosto das capas grandes, do ritual de ligar a vitrola e virar o disco. Há muita diferença entre escutar um vinil e um MP4. Não tem juízo de valor, é diferente. Quando posso escolher, ouço música na vitrola.