terça-feira, outubro 12, 2010

DIZEM QUE SOU LOUCO




Me roubaram uns dias contados (Record, 2010), Rodrigo de Souza Leão

Na passagem dos dias

O livro póstumo de Rodrigo de Souza Leão (1965/2009), “Me roubaram uns dias contados” é um romance com muitos personagens e um só, o próprio autor. Ele costura a narrativa ficcional com situações de seu cotidiano e outras referências ao mundo real. Vida e ficção quase não se distinguem.

Trata-se do quarto livro de Rodrigo de Souza Leão, que também era músico e poeta. O segundo livro, a novela “Todos os cachorros são azuis” (7 Letras, 2008) foi produzido com incentivo do Programa Petrobrás Cultural e um dos 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom. A atual produção faz parte do projeto da Editora Record de edição da obra inédita de Rodrigo. A organização do acervo está a cargo do escritor Ramon Mello.

O autor sofreu um surto psicótico que o levou a aposentadoria precoce aos 23 anos. Desenvolveu o que popularmente se chama síndrome do pânico e ficou sem sair de casa por vinte anos. A loucura é o principal tema de sua obra.

Pouco antes de sua morte, Rodrigo de Souza Leão começou a sair para freqüentar aulas de pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Estava se destacando e sendo incentivado pelo professor e artista plástico João Magalhães, mencionado na nota de abertura do livro. A capa é um dos quadros de Rodrigo. Além destas referências diretas, o livro faz menção ao mergulho nas artes plásticas pelo autor através do personagem “Van Gogh brasileiro”, que não tinha uma orelha, pintou uma série de quarenta quadros em curto espaço de tempo, ganhou o prêmio Nobel da paz e era atazanado por um sósia. Paralelamente, ficou grávido de um extraterrestre e deu a luz a um híbrido que nunca chegou a ver.

A narrativa de Rodrigo aparenta ser totalmente fragmentada, mas não é. Ainda que crie e abandone personagens, divague entre considerações sobre a escrita, vida, loucura, juventude , frustração e dirija-se diretamente ao leitor para confessar que está ali enchendo lingüiça, faz de modo que a narrativa não se perca.

Vários personagens surgem, situações absurdas ocorrem e o leitor as perpassa como quem entra numa enorme construção cheia de cômodos e escadas, abrindo e fechando portas. O que se fragmenta são as diversas histórias, não a narrativa. O autor começa uma para logo perder o fio e iniciar uma outra. Diz que está tentando fazer um romance e que talvez não consiga. No entanto, o texto acaba sendo uma ficção sobre um escritor que tenta escrever um romance e por sofrer abalos psíquicos e “não ter o talento de Proust” não consegue terminar a história que estaria desenvolvendo. E cria outra e mais outra. Surge daí um personagem-narrador, elo de ligação entre as câmaras de suas histórias, ele mesmo transmudando-se em uma série de personagens, porém sempre reconhecível.

Dando ritmo a narrativa com uma freqüência que dá a impressão mesmo de ter sido calculada, são citados trechos de grandes sucessos da música brasileira, facilmente reconhecíveis pela notoriedade. Isso cria um elo com o imaginário do leitor que já tem onde se segurar durante as inúmeras mudanças no texto. A primeira vista aparentam ser fragmentações ou quebras no discurso. Uma leitura mais atenta percebe que não há quebra real e sim passagens sutis, quase imperceptíveis. Podemos encarar estas passagens como portas que ligam uma história a outra, ou transmutações de uma história em outra. O texto possibilita várias leituras.

O autor cita seu primeiro livro em prosa. Amarra sua vida literária dando coerência ao novo trabalho. A voz é a mesma com a diferença de que "Todos os cachorros são azuis" possuía nitidamente começo, meio, fim e apenas uma trama, constituindo-se numa novela. Em "Me roubaram uns dias contados" há várias tramas, situações de conflito e resolução, que ainda que não sejam escritas de forma tradicional, conseguem oferecer a estrutura de um romance tal qual conhecemos.

Outro dado importante na literatura de Rodrigo de Souza Leão reside no fato de que ele aproveita que o leitor de prosa esteja ali para que leia prosa poética ou poemas disfarçados de prosa: “A maioria das pessoas não tem assunto. Eu tenho assunto, mas prefiro ficar calado. Ninguém acredita no que falo. Não sei por que estou falando agora. Falo porque não sou ninguém e não me incomoda ser nada.” Neste aspecto, nos lembra Clarice Lispector que, apesar de não ser poeta, trazia em seus textos uma enorme carga poética e filosófica. Fazia isso através da boca de seus personagens. Entrava em contato direto com o leitor, remetendo-o a questionamentos profundos sobre a linguagem e a existência.

O mesmo ocorre, guardadas as devidas proporções, com o texto de Rodrigo de Souza Leão. Em alguns momentos, a narrativa é apenas um pretexto, uma armadilha, para pegar o leitor que se defronta com poesia. Construções lógicas, alumbramentos do autor são arremessados sem aviso prévio, nas brechas de suas “histórias”, nas pretensas quebras do discurso. Mas se a semelhança com Clarice Lispector se apresenta através da prosa poética na narrativa, o humor e o universo do absurdo de Rodrigo o atira para longe de dela. Não há momentos solenes na narrativa de Rodrigo. Se por acaso alguma frase esbarra neste terreno, é por ínfimos momentos que logo se revezam com deboche e ironia.

Conta-se que o autor, queria escrever um livro de seiscentas páginas, para que ele pudesse ficar em pé sozinho, apoiado em sua base. Não escreveu seiscentas páginas, mas produziu uma arquitetura capaz de dar ao texto a estrutura necessária para se manter de pé até o fim, como um bloco coeso.

[Elaine Pauvolid - JB digital, dia 9 de outubro de 2010]

segunda-feira, outubro 11, 2010

Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé



II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu.

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

[Poema de Hilda Hilst, musicado por Zeca Baleiro, cantado por Veronica Sabino]

sábado, outubro 09, 2010

quarta-feira, outubro 06, 2010

"O que é o poema? Ele é uma flor que não morre. É uma flor que não murcha. Uma flor que não tem perfume e que desabrocha em alguma parte alguma da vida."

Ferreira Gullar

[Revista BRAVO! Outubro/2010, em matéria assinada por João Barile]

terça-feira, outubro 05, 2010

PORTRAIT

eu ramones por jô bilac [05.10.2010 - berlim]

JORNAL DE SERVIÇO




Leitura em diagonal das páginas amarelas

Jornal de Serviço

Adriana Calcanhotto
Composição: Carlos Drummond de Andrade

I
Máquinas de lavar
Máquinas de lixar
Máquinas de furar
Máquinas de curvar
Máquinas de dobrar
Máquinas de engarrafar
Máquinas de empacotar
Máquinas de ensacar
Máquinas de assar
Máquinas de faturamento

II
Champanha por atacado
Artigos orientais
Institutos de beleza
Metais preciosos
Peleterias
Salões para banquetes e festas
Condimentos e molhos
Botões a varejo
Roupas de aluguel
Tântalo

III
Panelas de pressão
Rolos compressores
Sistemas de segurança
Vigilância noturna
Vigilância industrial
Interruptores de circuito
Iscas
Encanadores
Alambrados
Supressão de ruídos

IV
Doenças da pele
Doenças do sangue
Doenças do sexo
Doenças vasculares
Doenças das senhoras
Doenças tropicais
Câncer
Doenças da velhice
Empresas funerárias
Coletores de resíduos

V
Papéis transparentes
Vidro fosco
Gelatina copiativa
Cursinhos
Amortecedores
Resfriamento de ar
Retificadores elétricos
Tesouras mecânicas
Ar comprimido
Cupim

VI
Mourões para cerca
Mudanças de pianos
Relógios de igreja
Borboletas de passagem
Cata-ventos
Cintas abdominais
Produtos de porco
Peles cruas
Peixes ornamentais
Decalcomania

VII
Peritos em exame de documentos
Peritos em imposto de renda
Preparação de papéis de casamento
Representantes de papel e papelão
Detetives particulares
Tira-manchas
Limpa-fossas
Fogos de artifício
Sucos especiais
Ioga

VIII
Anéis de carvão
Anéis de formatura
Purpurina
Cogumelos
Extinção de pêlos
Presentes por atacado
Lantejoulas
Sereias
Souvenirs
Soda cáustica

IX
Retificação de eixos
Varreduras mecânicas
Expurgo de ambientes
Revólver para pintura
Pintores a pistola
Cimento armado
Guinchos
Intérpretes
Refugos
Sebo

sexta-feira, outubro 01, 2010

RIO-HAITI,CIDADE ATRAVESSA


a antologia "brasil-haiti" vai ser lançada nesta sexta-feira no 'cidade atravessa', na livraria da travessa do centro, das 17h30 às 20h. neste livro está meu conto 'o dia em que parei de fumar'.

no evento, leituras de roberto muggiati, simone magno, felipe pena, ronaldo ferrito, talles machado horta, henrique rodrigues, angela dutra-menezes e lúcia bettencourt. além de entrevista com geraldo carneiro e fausto fawcett.

quarta-feira, setembro 29, 2010

DIAMANTE


[Antonio Cicero]

O amor seria fogo ou ar
em movimento, chama ao vento;
e no entanto é tão duro amar
este amor que o seu elemento
deve ser terra: diamante,
já que dura e fura e tortura
e fica tanto mais brilhante
quanto mais se atrita, e fulgura,
ao que parece, para sempre:
e às vezes volta a ser carvão
a rutilar incandescente
onde é mais funda a escuridão;
e volta indecente esplendor
e loucura e tesão e dor.

terça-feira, setembro 28, 2010

HOMENAGEM A ADALGISA NERY


homenagem a poeta Adalgisa Nery (1905-1980) na Fundação Casa de Rui Barbosa, dia 30 de setembro, às 18h. vou mediar a conversa entre Ana Arruda Callado, Dalva Nery e Elizabeth Feldhuzen.

DIGESTÃO


ele ainda está na calçada da voluntários, sob a chuva, com o coração na boca.

sábado, setembro 25, 2010



Agora

[Rosanna Decelso]

agora que você não quer
agora que você não diz que quer eu quero
agora que você diz não
agora que emudeceu seu coração eu falo

falo porque penso
ouço meu silêncio e canto
meu amor imenso
acenando o lenço no porto
sente dor mas não chora
sabe que o amor tem hora
pra chegar e pra partir

agora que você meu bem
agora que você não me quer bem eu quero
agora que você mais nem
me olha como se olhasse alguém eu olho

olho de relance
um filme um romance triste
cena de solidão
meu coração não resiste
sente dor mas não chora
sabe que o amor tem hora
pra chegar e pra partir

quinta-feira, setembro 23, 2010



O site do IMS publica vídeo com imagens de arquivo das famílias de Haruo Ohara e de Hikoma Udihara, um dos pioneiros da imigração japonesa no Paraná.

quarta-feira, setembro 22, 2010

"Um dia, como um dia para toda adolescente, eu senti que amava um homem. Conheci então uma nova paisagem da minha alma. Descobri nesse sentimento um senso de beleza capaz de afugentar todas as sombras acumuladas dentro do meu ser. Pela primeira vez, tive a sensação exata de força e liberdade. Lembro-me que, imantada por ele, eu me integrei totalmente em todas as partículas da vida e da natureza. Subindo os degraus de uma escada de pedra, reparei nas formigas que cruzavam e, com cuidado especial, procurei não esmagá-las com os meus pés. Fitei com uma ternura cuidadosa as plantas, as flores, as andorinhas, que traçavam espaço e a poeira de orvalho caída sobre as folhagens. Aprendi as cores nas luzes das manhãs e nas tonalidades do anoitecer. Eu estava no processo da metamorfose. Em tudo eu encontrava uma duplicidade de sentido. Estava sob a função de reminiscências eternas que atuavam como ligação do divino que surge no humano e com o divino que se entende no universo. Havia um abandono alegre no meu ser acompanhando a causa misteriosa. E, de repente, me senti identificada com a vida. Tive a impressão de que uma grande chuva caíra sobre o mundo, e agora se apresentava lavado, fresco, radiante. Creio que os meus gestos se tornaram harmoniosos, a minha voz era o eco da música das águas cantantes e a minha memória só se recordava das formas perfeitas, para essa nova construção. Foi uma fase de grandeza aguda e espetacular da minha alma. De tudo emanava doçura e leveza compensadoras".

[Trecho do romance autobiográfico A imaginária, publicado em 1957, o sétimo livro de Adalgisa Nery]

segunda-feira, setembro 20, 2010

ARRANJO HÍBRIDO


os lírios se abriram
ao som de trenzinho caipira
saudades, disseram

domingo, setembro 19, 2010

DOMINGO


dia internacional da carência

sábado, setembro 18, 2010

ADEUS, LATUF

"Não existe frase final, toda frase é um recomeço", professor Latuf Isaias Mucci - Doutor em Letras (UFRJ) e Professor de Teoria da Arte na UFF (Universidade Federal Fluminense).


Professor Latuf faleceu dia 9 de setembro de 2010.

sábado, setembro 11, 2010

SOZINHEZ

condição de estar só de forma reflexiva, com repercussões criativas


["sozinhez": expressão inventada por paulo mendes campos, na crônica 'para maria da graça' - volume 4 da coleção 'para gostar de ler', editora ática, 1989]

sexta-feira, setembro 10, 2010

DIMITRI BR - DIAHUM


diahum: uma nova música todo dia 1 | clique aqui para ouvir e baixar

GULLAR, 80 ANOS

O DUPLO

Foi-se formando
ao meu lado
um outro
que é mais Gullar do que eu

que se apossou do que vi
do que fiz
do que era meu

e pelo país
flutua
livre da morte
e do morto

pelas ruas da cidade
vejo-o passar
com meu rosto

mas sem o peso
do corpo
que sou eu
culpado e pouco

[poema extraído do livro Em alguma parte alguma - José Olympio, 2010]


O poeta Ferreira Gullar completa 80 anos nesta sexta-feira, 10 de setembro:

http://migre.me/1eaiM


quarta-feira, setembro 08, 2010

AL BERTO



[noite de lisboa com auto-retrato e sombra de ian curtis]




Al Berto nasceu a 11 de janeiro de 1948 em Coimbra, Portugal. Seu nome de batismo era Alberto Raposo Pidwell Tavares. Estudou em Lisboa, primeiramente, e mais tarde viajou a Bruxelas para estudar pintura. Voltou a Portugal na década de 70, onde passou a dedicar-se exclusivamente à escrita. Publicou vários livros de poesia, como Meu Fruto de Morder, Todas as Horas (1980), Salsugem (1984) e Horto de Incêndio (1997), mas foi a coletânea O Medo, com poemas escritos entre 1974 e 1986, editada pela primeira vez em 1987, que trouxe o reconhecimento da importância de Al Berto no panorama da poesia portuguesa contemporânea, tornando-se o livro mais conhecido do poeta português, ao qual seriam adicionados em posteriores edições novos escritos do autor, mesmo após a sua morte. Al Berto tornou-se um dos poetas mais conhecidos do Portugal pós-Salazar, por fazer de “Al Berto” uma criação poética em que a vida e a obra se entrelaçavam. Atualmente, sua obra é editada pela prestigiosa Assírio & Alvim. Al Berto morreu em 1997.

terça-feira, setembro 07, 2010

A Quoi ÇA Sert L'amour



[animação de Louis Clichy]

A Quoi ÇA Sert L'amour
Edith Piaf & Theo Sarapo

A quoi ça sert l'amour ?
On raconte toujours
Des histoires insensées.
A quoi ça sert d'aimer ?

L'amour ne s'explique pas !
C'est une chose comme ça,
Qui vient on ne sait d'où
Et vous prend tout à coup.

Moi, j'ai entendu dire
Que l'amour fait souffrir,
Que l'amour fait pleurer.
A quoi ça sert d'aimer ?

L'amour ça sert à quoi ?
A nous donner d' la joie
Avec des larmes aux yeux...
C'est triste et merveilleux !

Pourtant on dit souvent
Que l'amour est décevant,
Qu'il y en a un sur deux
Qui n'est jamais heureux...

Même quand on l'a perdu,
L'amour qu'on a connu
Vous laisse un goùt de miel.
L'amour c'est éternel !

Tout ça, c'est très joli,
Mais quand tout est fini,
Il ne vous reste rien
Qu'un immense chagrin...

Tout ce qui maintenant
Te semble déchirant,
Demain, sera pour toi
Un souvenir de joie !

En somme, si j'ai compris,
Sans amour dans la vie,
Sans ses joies, ses chagrins,
On a vécu pour rien ?

Mais oui ! Regarde-moi !
A chaque fois j'y crois
Et j'y croirai toujours...
Ça sert à ça, l'amour !
Mais toi, t'es le dernier,
Mais toi, t'es le premier !
Avant toi, 'y avait rien,
Avec toi je suis bien !
C'est toi que je voulais,
C'est toi qu'il me fallait !
Toi qui j'aimerai toujours...
Ça sert à ça, l'amour !...

domingo, setembro 05, 2010

As-tu déjà aimé



Louis Garrel et Grégoire Leprince-Ringuet chantent "La Beauté du geste" (As-tu déjà aimé) à l'Alhambra (Paris) le 25 mars 2010.



As Tu Déjà Aimé? [Les Chansons D'amour]

As-tu déjà aimé
pour la beauté du geste?
As-tu déjà croqué
la pomme à pleine dent?
Pour la saveur du fruit
sa douceur et son zeste
T'es tu perdu souvent?

Oui, j'ai déjà aimé
pour la beauté du geste
mais la pomme était dure.
Je m'y suis cassé les dents.
Ces passions immatures,
ces amours indigestes
m'ont écoeuré souvent

Les amours qui durent
font des amants exsangues,
et leurs baisers trop mûrs
nous pourrissent la langue

Les amour passagères
ont des futiles fièvres,
et leur baiser trop verts
nous écorchent les lèvres

Car a vouloir s'aimer
pour la beauté du geste,
le ver dans la pomme
nous glisse entre les dents.
Il nous ronge le coeur,
le cerveau et le reste,
nous vide lentement

Mais lorsqu'on ose s'aimer
pour la beauté du geste,
ce ver dans la pomme
qui glisse entre les dents,
nous embaume le coeur,
le cerveau et nous laisse
son parfum au dedans

Les amours passagères
font de futils efforts
Leurs caresses ephémères
nous faitguent le corps

Les amours qui durent
font les amants moins beaux
Leurs caresses, à l'usure,
ont raison de nos peaux.

sexta-feira, setembro 03, 2010

NOLL






"A viagem é muito individual, não é? [silêncio] Eu acho que tem que doer um pouco, a escrita. Se não doer um pouco tem alguma coisa errada aí. A não ser que o cara seja um escritor de questões históricas... Seja muito distante da psicologia pessoal, está mais preocupado com o mundo objetivo etc. Se não, acho que tem que doer um pouco. Na literatura, tem que ir um pouco além daquilo que você vive, daquilo que se é obrigado a viver no meio social... Esconde-se muita coisa diante dos outros. E na literatura tem que se desvelar, revelar isso... É isso que dói. Eu quando escrevo fico pensando: “Essas coisas não se dizem! Não devem ser ditas”. Não, vamos dizê-las, sim.mos dizê-las, sim."

>>> leia a conversa completa, aqui!


ORIXÁ DAS PALAVRAS

Foto: Mauro Ferreira
Por Ramon Mello

Ansiosos, os estudantes adolescentes aguardavam o início da pré-estreia de Bethânia e as Palavras, no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro. Alguns empunhavam cadernos com declarações de amor, outros levavam discos com fotos da cantora, muitos falavam alto, gargalhavam. Quando Maria Bethânia subiu ao palco, com os pés sempre descalços, o silêncio tomou conta do ambiente, para, em seguida, ser cortado por aplausos e gritos elogiosos.

Bethânia, mãos ao alto, óculos no rosto, longe do microfone, no centro do palco, canta, à capela, com sua voz híbrida, um trecho de música em reverência a Iansã, deusa africana dos ventos e das tempestades. O público torna a ficar em silêncio, aguardando o próximo gesto da cantora, que, de tão imponente, lembra o próprio orixá de que é devota. Tomando o microfone, a intérprete abre o espetáculo assumindo seu amor pela palavra falada, confessando a alegria e a surpresa de estar no teatro para fazer leitura de textos.

Mesclando canções, Bethânia lê dramaticamente, acompanhada do violonista Luiz Brasil (que, por esquecer de tocar o violão durante a leitura de alguns poemas, levou uma bronca da cantora) e do percussionista Carlos Cesar, de poetas e escritores que marcaram sua vida: Sophia de Mello Breyner Andersen, Cecilia Meireles, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Fausto Fawcett, Wally Salomão, Cacaso, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa. "O palco é sempre lugar de aprender", afirma Bethânia, para em seguida cantarolar um trecho da música “O que é? O que é?”, de Gonzaguinha: "Viver! / E não ter a vergonha / De ser feliz ".

Apresentada às palavras pelo professor Nestor de Oliveira, mestre de sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, Bethânia expõe sua intimidade com textos de escritores e poetas, principalmente com Fernando Pessoa - cuja reverência rendeu à Maricotinha a Ordem do Desassossego, da Casa Fernando Pessoa, em Portugal. “Mesmo estudando no recôncavo da Bahia, é possível se encantar com as palavras. É uma prova que é possível uma educação plena”, diz a cantora, que dedicou o espetáculo a suas mestras Teresa Aragão (ex-mulher de Ferreira Gullar) e Violeta Arraes. A intérprete também agradeceu aos alunos e professores presentes na plateia, entre eles Julio Diniz, diretor do departamento de Letras da PUC - Rio, seu amigo e colaborador.

O novo espetáculo de Maria Bethânia, criado em 2009 a partir de um convite da Universidade Federal de Minas Gerais para participar do ciclo de conferências Sentimentos do mundo, é uma declaração de amor à língua portuguesa.

Entre versos e canções, no palco, Maria Bethânia é um “orixá das palavras”.

>>> Maria Bethânia conversa com Leilane Neubarth (Globo News) sobre o espetáculo " Bethânia e as Palavras":




>>> Assista à entrevista exclusiva de Maria Bethânia ao SaraivaConteúdo:



quarta-feira, setembro 01, 2010

sonhei que me transformava num cachorro engolidor de tempo

CBN - LEÃO

[entrevista sobre Rodrigo de Souza Leão para o blog Tempo de Letras - CBN, da jornalista e poeta Simone Magno]

terça-feira, agosto 31, 2010

MOINHO






O Mundo é Um Moinho
Cartola
Composição: Cartola

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

sábado, agosto 28, 2010

DEPUTADO FEDERAL


nesta eleição vou votar no meu amigo Jean Wyllys [5005] para deputado federal, pois acredito em sua integridade e sensibilidade.

jean wyllys tem tudo para se tornar um político combatente.










quarta-feira, agosto 25, 2010

O CANTOR ROMÂNTICO ABANDONADO






"Nasceu em Lisboa corria o mês de Janeiro de 1979. Gonçalves é do signo Capricórnio com ascendente em Capricórnio, o que lhe confere características de uma personalidade forte e complexa. A sua infância e adolescência passou-a entre o mar da Costa de Caparica e das ilhas dos Açores, onde tem familiares distantes. Desde muito cedo que a sua paixão pela música e o mar levou-o a tomar decisões arrojadas e arriscadas. Abandonou a sua carreira académica e o surf que praticava de forma profissional para viajar a bordo de cruzeiros, primeiro como barman e mais tarde como artista a bordo. Foi assim que Gonçalves descobriu outros mundos e teve a oportunidade de conhecer variadíssimos artistas e cantores internacionais que o motivaram a escrever os seus sentimentos."

INFLUÊNCIAS:

ROBERTO CARLOS - "o maior e mais longiquo cantor latino, compositor e intérprete dos mais belos poemas de amor. É Rei Ro que personifica a ideia de que o cantor canta é o que o cantor vive"

SERGE GAINSBOURG - "o compositor eximio, letrista acutilante, o olhar sempre penetrante e sério. inovou a canção romântica com novos arranjos e inundou-a de ironia e sarcasmo"

DAVE - "o cantor holandês mais francês que existiu, sempre simpático e com sorrisso pronto, a sua voz é doce. Dave não canta o sofrimento, Dave é feliz. Rodeou-se de belos maestros e foi o unico a cantar Proust nas suas canções"

BEACH BOYS - "o quarteto que elevou os coros a outra dimensão. claro que na canção romântica raramente temos harmonias corais, mas os Beach Boys fazem-nos acreditar que a música é espacial por natureza"

MICHEL DELPECH – o cantor francês trágico, atingiu o sucesso com “Pour un Flirt” e caiu em depressão. Tem uma voz segura e uma presença sóbria mas fascinante. Compôs ainda um grande êxito desconhecido “Fan de Toi”

ELVIS PRESLEY - "sempre cantou canções de amor, mesmo no rock n´roll, o artista por natureza, com o Elvis em palco o show é tudo"

JÚLIO IGLESIAS – “a maior invenção da canção romântica, a sua personagem é admiravelmente moldada quando é contratado por uma major Americana. Torna-se o Icon do cantor latino e o que melhor trabalhou a expressão da sua voz. Para além disso teve dois estrondosos maestros a seu lado: Rafael Ferro e Ramon Arcusa”

ADAMO – um dos clássicos e eternos cantores, compositor maravilhoso e voz inconfundível, Viens Ma Brune, Tombe la Neige ficarão para sempre no cancioneiro”

SERGIO & MADI – “o verdadeiro e improvável duo romântico português. Sérgio Wonder e Madi, claro-escuro da canção ligeira. Produzidos por António Sala nos a os 80, quando ainda havia Mercado para a canção romântica.”

www.goncalogoncalves.com

DIRETO DO SÍTIO





TAPETUM LUCIDUM

é necessário enxergar o amor nas pupilas verticais dos olhos de um gato

terça-feira, agosto 24, 2010

segunda-feira, agosto 23, 2010

“Não creio que haja nenhum período feliz na nossa vida. Às vezes há uma fase de inconsciência da infelicidade. Nesse espaço de tempo, julgamos estar vivendo uma época feliz. Em realidade, o descontentamento não veio à tona. Estava em gestação no acontecimento. Só notamos quando a ocorrência vem à superfície dos nossos cinco sentidos. Porém ele nunca deixou de existir. É a esse hiato entre a ignorância e o conhecimento do desagradável que denominamos puerilmente de “época feliz”. O próprio amor que é a mais verdadeira proximidade da felicidade, não desligado jamais de um grande subterrâneo sofrimento. Sobre as horas ardentes de uma plena satisfação amorosa, estão o desgosto e o sofrimento vigiando o primeiro cansaço e o primeiro tédio para flutuarem num tempo mais largo, com maior duração e fundas conseqüências do que o momento nos trouxe a sensação do eterno (...) Sou um ser anaglífico vivendo uma sincera fusão de duas imagens de perspectivas semelhantes. Há uma intensidade de forças em profundidade e em extensão girando em meu redor como o ectoplasma. Daí sentir-me constantemente no limbo.”

Adalgisa Nery, A Imaginária (1959)


[anaglífico: adj. 1. em que há anáglifos; 2. em que há ilusão de relevo ou profundidade]

sexta-feira, agosto 20, 2010

O SONHO DE DRUMMOND




leia a matéria na íntegra, AQUI!
um fã, junto com o amigo, deixou um bilhete para Renato Russo e recebeu como resposta uma carta com sugestões de leituras.

"Uma boa idéia rapazes é ler livros. Aí vocês verão que nem sou tão original"

[clique na imagem para ampliar]


-> a lista de livros recomendados por Renato Russo:

Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas, Robert Pirsig

A Montanha Mágica, Thomas Maan

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Estórias de Fada, Oscar Wilde

A Revolução dos Bichos, George Orwell

Capitães de Areia, Jorge Amado

Encontro Marcado, Fernando Sabino

O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger

Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Etienne de la Boétie

O Senhor dos Anéis, JRR Tolkien

Siddharta, Herman Hesse

Demian, Herman Hesse

Narciso e Goldmund, Herman Hesse

O Lobo da Estepe, Herman Hesse

Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe

Fundação, Isaac Asimov

1984, George Orwell


-> Outros autores:

Júlio Verne

Fernando Pessoa

Carlos Drummond de Andrade

Colin Wilson


-> Outros livros:

O Vampiro Lestat, Anne Rice

Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva

[Fonte: Fantástico]

quinta-feira, agosto 19, 2010

SÉRGIO BRITTO, O TEATRO & EU

"a segunda vez, não só a primeira, pode ser importante", Sérgio Britto.


meu segundo encontro com o mestre.

> leia a entrevista na íntegra, AQUI!

SOBRE AS FOLHAS

sexta-feira, agosto 13, 2010

"(...) o livro, materialmente, na sua feição mais requintada ou mais generalizada presente - folhas de papel impresso, alçadas, coligadas e vestidas numa unidade normalmente portátil (mesmo que a duas mãos) -, esse livro pode desparecer: mas não desaparecerão, com sua fisicidade, as suas mensagens e seus códigos (...) O computador que equivale à soma de todos os livros será um servo daqueles dialetos - da linguagem oral, que sobretudo resultado dialético da linguagem escrita (...) O 'Livro' poderá, assim, para certos fins, apresentar-se sob outra técnica física. Mas enquanto perdurar o rigor da leitura a sós, o enlevo da leitura a sós, a emoção do manuseio sensual das páginas, enquanto isso perdurar, teremos os livros-livros, estes que estão aí tão incorporados a nossa maneira de sermos humanos"

Antônio Houassis, prefácio de A Construção do Livro, de Emanuel Araújo

BRASIL-HAITI


"No começo de 2010, quando o terremoto no Haiti tirou a vida de milhares de pessoas e deixou um número ainda maior de desabrigados, o inglês Greg McQueen fez um apelo na internet: queria reunir 100 histórias, não necessariamente sobre as tragédias, e publicá-las em um livro. A receita líquida seria destinada a organizações envolvidas na ajuda humanitária do país. A partir daí, nasceu o livro 100 Stories for Haiti (100 histórias para o Haiti).

Pensando em ajudar não só o Haiti, mas também as vítimas dos desastres naturais que assolaram o Rio de Janeiro, Pernambuco e Alagoas, que a Garimpo Editorial resolveu lançar uma nova versão, intitulada Brasil-Haiti ―101 histórias. Uma esperança. Na versão brasileira, cerca de 30 histórias foram escritas por autores nacionais, substituindo parte dos contos originais. E foi adicionada uma história extra, em quadrinhos.

Os autores: Carlos Nomoto, Alasdair Stuart, Alex Irvine, Andy Parrot, Angela Dutra Menezes, Antonio Carlos Secchin, April L. Hamilton, Barry Cooper, Ben-Edy, Billy O'Callaghan, C.S. Soares, Catriota Gunn, Charlie Taylor, Clare Reddaway, Claudia Boers, Claufe Rodrigues, Dan Powell, Debora Fielding, Elaine Everest, Elizabeth Reeder, Elomar Jardim, Emily George, Felipe Pena, Fernando Alves, Fionnuala Murphy, Francesca Burgess, Galeno Amorim, Gillian Best, Glynnis Scrivers, Greg McQueen, Gwen Grant, Henrique Rodrigues, Jac Cattaneo, Jack O'Donnell, Jane Roberts, Jane Thomas, Jason E. Thummel, Jean Blackwell, Jenna Wallace, Jennifer Domingo, Jim Harrington, Joanna Campbell, João Gabriel de Lima, João Montanaro, Joel Willans, Julia Bohanna, Justin Stanchfield, Katrerne Spink,Katy Darby, Kirsty Logan, Lauri Kubuitsile, Layla O'Mara, Lúcia Bettencourt, Luis Eduardo Matta, M.C.M., M.G. Farrelly, Maire Cooney, Marcelo Moutinho, Márcio-André, Martin Reed, Martin Tyrell, Mary Walkden, Maureen Vicent-Northam, Mauro Ventura, Menalton Braff, Mo Fanning, Moacyr Scliar, Monica Pocker, Nadene Carter, Nick Harkaway, Nicola Taylor, Nuala Ní Chonchúir, Omar de Souza, Ozzie Nogg, Pam Howes, Patrícia Sotello, Patti Jazanoski, Peter Morin, R.J. Newlyn, Rachel Shukert, Ramon Mello, Raymundo Silveira, Roberto Muggiati, Rosemary Gemmell,Ryan Spier, Sarah Ann Watts, Sergio Pavarini, Sherri Turner, Siân Harris, Sidney Rocha, Simone Magno, Susan Partovi, Sylvia Petter, Tania Hershman, Teresa Cristina Abreu, Teresa Stenson, Tim Maguire, Tony Cook, Trevor Belshaw, Valéria Martins, Vanessa Gebbie e Virgínia Martin.

Lançamento na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo nesta sexta-feira, dia 13 de agosto, das 18 às 18h45 na Sala de Coletivas de Imprensa.


Rio-Haiti
Obra reúne histórias de solidariedade

Ricardo Costa, Ramon Mello, Valéria Martins,Carlos Nomoto, Claudio Soares e Gregory Pek.

O primeiro passo da solidariedade foi dado pelo inglês Greg McQueen, que vive na Dinamarca. Tocado pela tragédia provocada pelo terremoto no Haiti, no início do ano, ele lançou um apelo na internet: queria reunir 100 histórias, não necessariamente sobre as tragédias, e publicá-las em um livro. A receita líquida seria destinada a organizações envolvidas na ajuda humanitária do país. Em pouco tempo, ele arrebanhou diversas contribuições, necessárias para formar o livro "100 Stories for Haiti - 100 histórias para o Haiti".

"Fiquei impressionado com a mobilização e decidi ajudar não apenas as vítimas do Haiti mas também os desabrigados do Rio de Janeiro, Pernambuco e Alagoas", conta o jornalista Ricardo Costa, editor do site de informações "Publish News". Também o retorno foi rápido - ao mesmo tempo em que recebeu sinal positivo de diversos autores, ele conseguiu o apoio da Garimpo Editorial, que se responsabilizou pela edição brasileira, e também da Visão Mundial, uma das maiores e mais respeitadas organizações de promoção de justiça e assistência do mundo, que se ofereceu para intermediar o envio da receita líquida aos projetos de auxílio nos dois países. União de esforços que resultou em "Brasil-Haiti - 101 Histórias. Uma Esperança" (256 páginas, R$ 25).

O livro traz 70 narrativas originais, cujo trabalho de tradução também foi voluntário. O restante são as contribuições nacionais, de autores como Moacyr Scliar, Antonio Carlos Secchin, Mauro Ventura, Galeno Amorim, Angela Dutra de Menezes entre outros. "Eu não tinha nenhum texto guardado - atualmente, com blogs, é difícil manter algo inédito -, mas decidi ajudar, criando rapidamente uma história que não tem necessariamente uma relação com a tragédia", conta Ramon Mello, autor das belas poesias de "Vinis Mofados" (Língua Geral).

Diferente da original, a edição brasileira também traz uma história extra, em quadrinhos. O livro está à venda no estande da Garimpo, na Bienal do Livro, e logo deverá chegar às grandes livrarias, que também aceitaram participar da causa.


[Ubiratan Brasil - Estado de São Paulo 16/08/2010]


quinta-feira, agosto 05, 2010

quinta-feira, julho 29, 2010

SOBRE ENSAIOS


retratos da literatura brasileira, fotografias de TOMÁS RANGEL


Chico Buarque, Luiz Ruffato, Armando Freitas Filho, Rodrigo de Souza Leão, Eucanaã Ferraz, Fábio Moon e Gabriel Bá, Heloísa Buarque de Hollanda, Lya Luft, Ferreira Gullar, João Gilberto Noll, Lourenço Mutarelli, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Andre Dahmer e Zuenir Ventura.


Falar (ou calar) a imagem: as fotos de escritores de Tomás Rangel

Francisco Bosco

Na novela A vida privada, de Henry James, um famoso escritor, de obras brilhantes e cheias de vida, é entretanto uma pálida, monótona figura social. Uma noite, o narrador da novela entra em seu quarto, enquanto o escritor está ausente, a fim de pegar um manuscrito. O narrador toma um susto, pois flagra o suposto ausente em pleno ato de escrever. O susto, entretanto, torna-se ainda maior na manhã seguinte, quando descobre que, na verdade, o escritor não estava no quarto no momento em que ele o teria visto. A chave alegórica do mistério é clara: um escritor só está, verdadeiramente, enquanto escreve. Ocorre que esse momento é a vida privada no sentido mais estrito: indevassável, invisível, de que só se reconhece o reflexo pela obra produzida.

É em fidelidade rigorosa a essa lei que alguns escritores não permitem que se façam imagens de suas pessoas. O que neles interessa, o que tem poder de revelar, são suas obras. Daí que de Blanchot, um dos escritores que mais pensou sobre a questão “o que é a literatura?”, não se conheça nem uma imagem sequer. Afinal, o que se pode revelar quando se fotografa um escritor?

É essa a questão de fundo de toda fotografia de escritor, questão que paira sobre a presente série de imagens de Tomás Rangel. A fotografia, como qualquer outra linguagem, em geral deve produzir uma visão. Tome-se, aleatoriamente, entre todos os exemplos possíveis, uma foto de Mapplethorpe. Não há ali anterioridade. A imagem é engendrada a partir de sua textura, de sua composição, do contraste clássico (nítido) entre as matizes no interior do preto e branco. De modo simetricamente oposto, um fotógrafo que se disponha a fotografar um balé irá lidar com uma anterioridade, mas aí se trata de algo que é passível de se tornar visível: o movimento gracioso existe já no objeto, cabe ao fotógrafo captar o instante mais perfeito de cada uma de suas formas.

A fotografia de escritores não se encontra em nenhum desses casos, mas em algum ponto cego entre ambos. A imagem não aposta exclusivamente em seus recursos próprios de composição para produzir uma forma e um sentido, mas tampouco poderá flagrar a forma e o sentido dados por seu “objeto”. As imagens de Tomás Rangel ocupam tateantes esse entrelugar, oscilando entre um significante (texturas, luz, composição) que arrisca ser insuficiente e uma anterioridade que não é possível.

Ele, no entanto, se sai bem dessa equação delicada. Observe-se a foto de Armando Freitas Filho, onde um lustre irregular – gago, dir-se-ia – derrama uma luz que parece partir do escritor, deixando uma penumbra ao redor. O escritor e os livros são iluminados. Ao fundo, na capa de um livro do próprio Armando, lê-se “Lar”. O detalhe tem valor de comentário: o lar do escritor é a luz engendrada por ele e os livros que lê e escreve. Eis, portanto, uma foto legível, uma foto que fala.

Mas as melhores fotos de Tomás são, a meu ver, aquelas em que o impasse constitutivo da foto de escritores é como que tematizado. Se a imagem do escritor não fala por si só (é sua obra que fala por si só), então que se tente tornar visível esse silêncio mesmo. É essa vibração silenciosa e negativa que Tomás consegue captar na foto de Eucanaã Ferraz, por exemplo. Ou na de Bernardo Carvalho, onde, se não forço a nota, o preto e branco almeja o estatuto de expressivo silêncio.




Casa da Cultura de Paraty - FLIP 2010


De quarta à segunda das 11h às 19:30h.
Rua Dona Geralda, 177 Centro Histórico Paraty RJ
Cep: 23.970-000
Tel/Fax: (24) 3371-2325

QUAL A PALAVRA MAIS BONITA DA LÍNGUA PORTUGUESA?


'alumbramento'

"Alumbramento S. m. P. U. 1. Inspiração sobrenatural; iluminismo. 2. Deslumbramento, maravilhamento: 'Um dia eu vi uma moça nuinha no banho / Fiquei parado o coração batendo / Ela se riu / Foi meu primeiro alumbramento' (Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, p. 116). 3. Inspiração, iluminação".

Novo Dicionário da Língua Portuguesa


> Daniel Piza defende a palavra 'diáspora':

"Sempre me espanto quando perguntam a profissionais do verbo qual a palavra mais bonita da língua portuguesa e eles respondem apenas uma, como “libélula” (a opção do filólogo Antonio Houaiss). São tantas! Num só livro de Mia Couto há um mar delas a pescar, e uma das características de Pessoa que mais aprecio é não ter medo de usar advérbios em “-mente” ou de repetir termos próximos – recursos que os pedagogos da área dizem ruins para o estilo, como se eles tivessem um. Todo dia me ocorre ao menos uma bela palavra que ainda não estava na minha hipotética lista de palavras mais bonitas; e hoje, por motivos evidentes, eu poderia escolher a do título acima, “diáspora”. Como diria Pessoa, “o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos” – “diáspora” significa uma coisa e evoca muitas outras, envolvidas pela mesma musicalidade – tudo isso lhe dá beleza. A diáspora das palavras é inevitável como o vento no barco."

O QUE FALAR QUER DIZER?


"Falar quer dizer emitir som. Vibrar uma energia. Fazer poesia e filosofia. Falar também pode ser só blá blá blá, histeria, insegurança, medo do silêncio, do encontro. O som do silêncio é demasiado alto e revelador, por isso falar é tão popular".

Mariana Montenegro

terça-feira, julho 20, 2010

SEBOSO


[Shakespeare & Company, abril de 2010]

segunda-feira, julho 12, 2010

MAIS PRA LÁ DO QUE PRA CÁ

Por Ronaldo Bressane (Brasil Econômico)



MAIS PRA LÁ DO QUE PRA CÁ

A publicação póstuma de Me Roubaram Uns Dias Contados ilumina a obra de Rodrigo de Souza Leão, que a vida toda lutou (mas também se divertiu) com a condição de esquizofrênico

Por Ronaldo Bressane (Brasil Econômico)

"Eu sou. Rodrigo é. Você é. Ela é. Temos distúrbio delirante. Mania de grandeza. Esquizofrenia. Psicose. Neurastenia. Bipolaridade. Somos um exército de loucos. Sou um louco lúcido. Não dá ibope ser assim." Deste modo o carioca Rodrigo de Souza Leão condensava as muitas faces de sua obra: registro autobiográfico, a condição de esquizofrênico, a multiplicidade de vozes e certa desconfiança de que, por se situar na fronteira entre ficção e confissão, autodomínio e descontrole, nunca seria levado a sério. O autor do recém-lançado Me Roubaram Uns Dias Contados (Record) brincava que "depois que morre, todo escritor vira Ana Cristina Cesar". Aconteceu com ele: pouco lido em vida, publica o primeiro romance, Todos os Cachorros são Azuis (7Letras), finalista do Prêmio Portugal Telecom 2008, também foi reeditado. Será que, como autores que transitam entre o delírio e o suicídio - uma das possíveis causas da morte, por ataque cardíaco, foi a excessiva automedicação -, Rodrigo vai virar fetiche? "Essa é a minha preocupação", diz Ramon Mello, poeta que organizou o material inédito deixado por RSL. "A imprensa comenta muito o aspecto biográfico do autor, mas o que interessa é sua arte. Rodrigo sofria de esquizofrenia e sua produção refletia esse universo. No entanto, ele era um poeta que já escrevia antes do primeiro surto; é um escritor que mergulhou em seu inconsciente para trazer para o papel personagens ricos, que têm muito a dizer".

Que personagens? Weimar, um sexólatra que tem dez telefones em casa, para participar de diversos encontros amorosos ao mesmo tempo - sem contar a internet. Onanista de mão cheia, Weimar vive mais no mundo virtual, através do telefone e do computador, que presencialmente (agora observe as pessoas em volta e pense se isso é mesmo loucura). Enquanto desdobra-se entre as ninfomaníacas Mental e Vegetal, Weimar se irrita com a rotina e desconta a fúria em Rodrigo, autor do livro de que é personagem. Logo surgem os amigos imaginários Gregor e Joseph, o Sósia e outro narrador, o Van Gogh Brasileiro, cujo filho foi sequestrado por ETs e levado para o planeta Rock Hudson. Nesta polifonia de voz única, colagem de textos na primeira e na terceira pessoa, versos pessoais e letras de rock do s anos 80, indo do humor ao horror de 0 a 100 Km/h, como se brincasse de pega-pega consigo mesmo, a narrativa entra num ritmo... alucinante.

"Ninguém se conhece tanto a ponto de abrir a porta para um estranho sem saber se o estranho é ele mesmo." Na peculiar mistura de singelo surrealismo, lisa ironia e excruciante melancolia, em versos de fatura lógica, rimas simples e musicalidade imediata, o carioca RSL era uma lenda. Escritor incansável na rede - onde estava desde 1996, publicando o e-zine Balacobaco -, multiplicou-se por 10 e-books, artigos, entrevistas e participações em vários sites. Era uma lenda também por falar sem medo nem esperança da esquizofrenia, que o mantinha recolhido em casa. Em seu único livro de poesia publicado, Caga-Regras, poemas como 'Caixa de fósforos' falam do paradoxo de viver do outro lado da tela: "Eu não saio pra ver a vida?/Eu vivo ávido de vida?/A vida está aqui dentro/Tão dentro que estou morto?/Pronto pra pegar fogo;" Os transtornos mentais , que o levaram à internação em manicômio (tema de Todos os Cachorros são Azuis), e a luta por destrinchar os eventos criados pelo inconstante convívio entre a "normalidade" social e a realidade de uma mente em parafuso, relacionam o poeta numa linguagem rara. O cânone desta escrita de autobiográfica investigação psicopatológica alinha do Lima Barreto de O Cemitério dos Vivos à Maura Lopes Cançado de Hospício é Deus, passando pelo Renato Pompeu de Quatro-Olhos, o Carlos Sussekind de Armadilha para Lamartine, o José Agrippino de Paula de Lugar Público e o Lourenço Mutarelli de Arte de Produzir Efeito Sem Causa. Ficções desalinhadas na crítica acaddêmica, que ainda nos deve um estudo sério sobre a intersecção arte-loucura-biografia na literatura brasileira. Sério, mas, por favor, sem perder o humor - como pedia Rodrigo de Souza Leão, especialista em se equilibrar do lado de cá e do lado de lá.

quinta-feira, julho 08, 2010

AZUIS, SEGUNDA EDIÇÃO


em breve a editora 7 Letras vai lançar a segunda edição do livro 'Todos os cachorros são azuis', de Rodrigo de Souza Leão.

veja a nova capa, com ilustração de Filipe Carvalho:


DO OUTRO LADO

por Juliana Krapp

quarta-feira, julho 07, 2010

CAJÚ

Cazuza: 20 anos após sua morte, obra do cantor vira referência

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Exatamente duas décadas depois de sua morte (por complicações causadas pela Aids, no dia 7 de julho de 1990), Cazuza entra no time de figuras cultuadas pelas novas gerações de artistas brasileiros. Mas, pela habilidade com as palavras e a atitude rebelde e transgressora, o cantor e compositor carioca transcendeu definitivamente as esferas musicais, tornando-se uma influência decisiva também entre escritores. Assim como já acontecera com Jim Morrison, suas letras são elevadas ao status de poesia.

Eu escuto Cazuza com o mesmo respeito com que leio Carlos Drummond de Andrade – explica o poeta Ramon Mello. – Acho que suas letras sobrevivem fora da música. Ouço suas canções como se fossem poesia.

Em seu último livro, Vinis mofados (2009), Mello dialoga abertamente com a música popular brasileira, compondo uma coletânea assombrada pelo universo pop. A presença de Cazuza aparece de forma direta em pelo menos dois poemas, 'Conjugado' e 'Overdose blues'. Para o poeta, a influência se exerce em sua geração tanto pela questão literária/musical quanto pela comportamental.

– Ele era um transgressor – argumenta. – E a sua atitude em relação à vida acaba inevitavelmente aparecendo no que ele escrevia e cantava.

Questão de atitude

A postura rebelde de Cazuza sensibiliza autores dessa geração, mesmo que eles não sejam diretamente influenciados pela estrutura do texto. É o caso do escritor e cantor carioca Bernardo Botkay, mais conhecido como Botika. Vocalista da banda Os Outros, é constantemente comparado a Cazuza por sua postura no palco – e até pela semelhança física. Mas no que diz respeito ao trabalho literário, tudo muda. Seu romance Autobiografia de Lucas Frizzo talvez só beba no universo de Cazuza pelo lado escrachado e contundente.

– Não param de me comparar a Cazuza, acho que por falta de opção – brinca Botika. – Há tão poucas pessoas autorais no rock que, quando aparece alguém, já chamam de Cazuza. Acho lindo, mas somos diferentes. O que me influenciou na escrita foi a falta de vergonha, uma certa atitude de se expressar. É essa coisa de colocar o pau na mesa.

“Também sou Cazuza”, escreveu o curitibano Luiz Felipe Leprevost em seu poema 'Balbúcio blues'. Assumidamente devedor da herança poética do cantor, o autor de Ode mundana é fascinado por sua figura desde moleque.

– Sempre me encantei pela sua postura transgressora, de bater de frente com a classe média, e sempre ouvi suas músicas como poesia – lembra Leprevost. – Ele foi o responsável por me fazer entender que letra de musica é, sim, poesia. Até porque era um dos poucos letristas brasileiros que faziam primeiro a letra para depois colocar a música. Se você escutar a letra de 'Todas as mães são felizes', vai ver que é puro Rimbaud.

O crítico, professor e poeta Ítalo Moriconi vê a presença de Cazuza hoje como um referencial em um caldeirão que junta indistintamente autores mais literatos e outros mais pops. O que já acontecia com as gerações anteriores, também influenciada por compositores populares. Na introdução de Caio Fernando Abreu: cartas, que organizou, o pesquisador afirma que Cazuza e Renato Russo seriam “almas irmãs de Caio em matéria de destino e expressão artística”.

– É tudo poesia, palavra cantada, falada e escrita – argumenta Moriconi. – Mas cada uma tem sua especifidade. Sempre que atravessam as fronteiras, há perdas e ganhos. Aqui no Brasil, contudo, desde a escola primária se tem a ideia de que as três configuram uma cultura poética de igual para igual.

[07.07.10]



Cazuza: 20 anos após sua morte, obra do cantor vira referência

>>> Ouça:

Interpretação de Cazuza para trecho do livro 'Água viva', de Clarice Lispector. Gravação raríssima de 1987 no Morro da Urca, Rio de janeiro. participação de Ângela Ro Ro





>>> Assista:
















"E, por uma ironia do destino, o mentor de Cazuza, Ezequiel Neves, mentor do Barão Vermelho, morreu hoje, 7 de julho de 2010, exatos 20 anos depois de Cazuza." (Mauro Ferreira)