terça-feira, maio 27, 2014

TEMPO DE MUTAÇÃO

JEAN WYLLYS NA TRAJETÓRIA POLÍTICA DO BRASIL

Conheci o texto de Jean Wyllys em 2008, após sua participação no Big Brother Brasil 5, por ocasião de uma entrevista sobre "Ainda Lembro" (Editora Globo, 2005), coletânea de crônicas sobre a experiência no reality show e contos do seu primeiro livro, "Aflitos" (Fundação Casa de Jorge, 2001). Com a atuação do escritor, professor e deputado federal Jean Wyllys desfiz alguns equívocos sobre a cultura de massa.

Desde então fiquei atento ao seu crescimento profissional e humano, passei a admirar sua dedicação às palavras – sejam elas escritas ou faladas. Consciente de seu trabalho político-social, acaba de publicar "Tempo Bom, Tempo Ruim – Identidades, Políticas e Afetos" (Cia. das Letras/Paralela, 2014), antologia de ensaios capaz de despertar mentes adormecidas ou aprisionadas por preconceitos e/ou estigmas:

“Sempre que uma minoria reivindica direitos ou procura influir na organização de relações que a oprimem e estigmatizam, os “guardiões” da ordem social – que, claro, gozam de privilégio nessa ordem estabelecida – opõem-se a tais reivindicações, às transformações e ao processo que elas podem trazer. A atitude mais freqüente desses mantenedores da ordem e da moral majoritária consiste em desqualificar os movimentos das minorias por meio de acusações infames e falácias. Um exemplo é afirmação de que as minorias, em sua mobilização, estariam tentando estabelecer uma ditadura. Em relação às reivindicações do movimento, os “guardiões” cunharam até mesmo a descabida expressão “ditadura gay” - como se afirmar o direito à homossexualidade significasse impedir heterossexuais de serem o que são (...) Cada grande momento de afirmação homossexual e reivindicação do direito à homossexualidade provoca, invariavelmente, uma reação homofóbica.”

O lançamento de seus textos engajados registra um capítulo importante na história política do Brasil: o livro é uma referência para se entender a defesa dos Direitos Humanos em tempos atuais, tão sombrios e tão iluminados. "Tempo Bom, Tempo Ruim" também deve ser considerado uma leitura fundamental para os estudos da homossexualidade, ao lado do clássico "Devassos no Paraíso" (Record, 1986) do escritor e ativista João Silvério Trevisan.

Para além da representação como deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, ele se estabelece como um crítico de seu tempo, pois através da reflexão sobre sua trajetória defende causas urgentes: a criminalização da homofobia, o combate ao fundamentalismo religioso, a efetivação da laicidade do Estado, a solidariedade ao portador do vírus HIV, a democratização dos meios de comunicação e a regulamentação da maconha. Como parlamentar, sua voz faz eco com a voz de seus parceiros de lutas sociais, como, por exemplo, Chico Alencar, Erika Kokay, Marcelo Freixo e Luiz Eduardo Soares.

O escritor e teólogo da libertação, Leonardo Boff, caro na formação de Jean Wyllys, destaca em “Nova Era: Civilização Planetária” (Editora Ática, 1994), que, em tempo de mutações, para transformar as relações sócio-culturais, “devemos acreditar na força revolucionária da semente”. Ou seja, devemos acreditar em nossos ideais e lutar por eles com a “consciência solidária e planetária, o sonho de uma democracia social”.

Pode-se afirmar que Wyllys tem fé (e muita) nesta “semente” que chamo de “palavra”. E que, por sua vez, ele próprio batiza de “arma” – que utiliza para vencer, não somente o embate com a linguagem, mas a “guerra perene” que enfrentamos ao nascer. Em seu caso, uma luta constante (da sobrevivência à infância pobre na Bahia aos atuais embates políticos em Brasília) que tem resultado em suadas vitórias.

Talvez o que mais revolte seus adversários políticos, num meio tão medíocre quanto hipócrita, é a capacidade que Jean Wyllys tem de articular seus pensamentos e defender seus ideais. Gay, pop, altruísta, celebridade, ativista, político... Pois é, ele é tudo isso, sem vergonha, o que faz suas palavras serem pautadas pela liberdade. Que venham mais livros e outros mandatos de parlamentar; aumentando assim sua força para lutar pelos Direitos Humanos.


Ramon Nunes Mello é poeta, jornalista e ativista dos Direitos Humanos.

[Publicado originalmente no site Ornitorrinco]

terça-feira, maio 13, 2014

PAPOULAS POLIPAPOULAS, PEDRO NAVA

Rafael Cardoso lembrou em um post de Facebook:

"Neste 13 de maio, quero lembrar uma data triste na história literária brasileira: há 30 anos, perdemos Pedro Nava, vítima de fantasmas e medos que rondam sempre nossa cultura. Fica minha pequena homenagem a esse grande escritor mineiro, que merecia ser muito mais lido."

- 13 de maio de 1984: O suicídio de Pedro Nava

http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=29912

- O suicídio anunciado de Pedro Nava
Humberto Werneck
[21 de julho de 2013]

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-suicidio-anunciado-de-pedro-nava,1055754,0.htm

=> Zuenir Ventura escreveu sobre o tema no livro "Minhas histórias dos outros" (Planeta, 2005) . Fiz um poema sobre o suicídio do Nava, publiquei no meu último livro, “Poemas tirados de notícias de jornal” (Móbile, 2012):


PAPOULAS POLIPAPOULAS

13 de maio de 1984
assim os fatos da memória
uma vida para pôr no papel as lembranças de família
exercita sua escrita frankenstein
deixa um retrato de amargura

chão de ferro nas páginas virgens o maior memorialista brasileiro
que pode adivinhar no infante
o parricida?
caleidoscópio mapas tempo caricaturas memória inconsciente
comentários puzzle baú de ossos
ele era? egon?
classificados: beto da prado júnior
por que não lembrar o galo-das-trevas ou círio
perfeito?
no basfond de copacabana assíduo frequentador em
narrativa benjaminiana proustiana
busque o sinônimo da vergonha
vermelho rubro carmim escarlate carmezim fulvo
ruivo aleonado (fauve) magenta nacarado púrpura
vinhoso garance nácar zarcão rubicundo goles solferino encarnado...
junto da árvore à beira-mar
glória! na têmpora o taurus calibre 32
um tiro
sangue vinho guelras fauces inferno lava vulcão carne
sangue canto de galo clarim toque de clarim grito
de raiva cólera colérico bancos de coral
em que brahmas em brumas pedro nava se afogou?
a ruína da catedral barroca
nava suicidou-se
solidão povoada de fantasmas

corrupção da memória
pare com isso
mocinho chantagista
eu temo mais matar do que morrer desejo ser embalsamado
injeção (dois litros) de formol na artéria femural
ou de preferência na carótida
por que acabar com sua própria vida?
e as memórias?
esquecer é um capítulo da memória (assim como que seu tombo)

Ramon Nunes Mello -“Poemas tirados de notícias de jornal” (2012)

segunda-feira, maio 12, 2014

VOZES EM ALTA

leituras transdisciplinares de poemas


Poesia contemporânea compartilhada por vozes com atuação em múltiplos segmentos profissionais.

Concepção e curadoria: Natasha Corbelino

Um ciclo que busca evidenciar a vida como poema. Versos dos quatro autores contemporâneos _espelhados em temas caros como a memória, a informação, o feminino, a existência _ atravessados por leituras de múltiplos segmentos da produção intelectual. Os textos serão lidos em voz alta, para a escuta no outro, por artistas, médicos, professores, biólogos, advogados, jornalistas. Noites de encontro para que possamos compartilhar a poesia que desenha caminhos para se estar na vida com a potência de existir, no mais humano em nós.



14 de maio, 20h30:
Ramon Nunes Mello: poemas tirados de notícias de jornal
> na polifonia da informação "a poesia se esfrega nas coisas, percebe?"

Leitores convidados:
Gabriela Dottori => estudante de psicologia (UFRJ) e artes visuais (Parque Lage),

Gisela de Castro => atriz e produtora cultural,

Leilane Neubarth => jornalista,

Luiz Eduardo da Gama e Silva => advogado,

Marcéli Torquato => atriz,

Nara Keiserman => atriz, diretora e preparadora corporal,

Rita Isadora => doutoranda em Literatura (UFF),

Sílvia Jardim => psicanalista e psiquiatra,

Vanessa Pereira Leite => psicanalista.

MIDRASH CENTRO CULTURAL
Rua General Venâncio Flores, 184, Leblon
Tel 2239 1800
Classificação etária: 16 anos
Lotação: 50 pessoas
Entrada franca

IMORAL

acabo de saber que o Sr. Eduardo Rosa, do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Acre (Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour), ficou tão chocado com minha literatura que teve o trabalho de escrever (em 15/10/2013) ao SNIIC/MinC (Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais) para denunciar meus livros como "impróprio/imoral". 

impróprio, para menores, concordo. principalmente meu primeiro livro de poemas, mas lê quem quer. quanto a imoral!? 

imoral é a política realizada no Acre! 

com toda sua riqueza natural e cultural, o Acre ainda é um dos estados mais pobres do país, com alto índice de analfabetismo, devido a péssima atuação de políticos.