segunda-feira, julho 20, 2015

LANÇAMENTO "A IMAGINÁRIA"

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ROMANCE DOLORIDO


‘A IMAGINÁRIA’, LIVRO DE ADALGISA NERY, É RELANÇADO 35 ANOS DEPOIS

Livro abre série de reedições de Adalgisa
Na obra, escritora, jornalista e política narra seu casamento perturbador com o pintor Ismael Nery

Por Nani Rubin - Segundo Caderno, O Globo [20 de julho de 2015]

[Adalgisa Nery em 1971. Foto: Paulo Garcez/O Pasquim]

A mãe morre quando ela é menina. Aos 8 anos, vai para um internato. O pai casa-se novamente, com uma italiana irascível. Aos 14 anos, apaixona-se por um homem seis anos mais velho, “de sensibilidade aguçada”. Casa-se aos 15, e muda-se para a casa da família do marido, um trio de mulheres alucinadas, em que se destaca a mãe beata com delírios persecutórios. Sua residência, mais tarde, é frequentada por intelectuais e artistas — de cujas animadas conversas, apesar de inteligente e curiosa, é alijada. Diagnosticado com tuberculose, o marido confessa ter um caso e, entre outras atitudes impiedosas, pede-lhe que procure a amante em seu nome. Jovem viúva com filhos pequenos, foge das sandices da sogra mudando-se para uma pensão, e sai à cata de emprego. É assim, entre episódios de mesquinharia, crueldade e loucura, que transcorre a vida de Berenice, narradora do romance “A imaginária”, de Adalgisa Nery. Assim transcorreu a vida da própria Adalgisa, contada neste livro de autoficção que chega às livrarias depois de 35 anos fora de catálogo, desde a morte da autora.

“A imaginária” será lançado amanhã, na Travessa de Botafogo, numa espécie de celebração da volta ao mercado da obra de Adalgisa (1905-1980) — depois dele, serão publicados seu outro romance, “Neblina” (em outubro), os volumes de contos “Og” e “22 menos 1″ e uma coletânea de poemas, ainda sem nome (os três em 2016). O fato de a escritora, poeta e tradutora ser mais lembrada, hoje, por sua carreira de jornalista (assinou durante 12 anos, no jornal “Última Hora”, a coluna diária “Retrato Sem Retoque”) e política — teve três mandatos de deputada, de 1960 a 1969, quando foi cassada pelo regime militar —, não surpreende Ramon Nunes Mello, poeta e jornalista à frente do projeto. Decidido a promover o resgate da obra, ele procurou seus cinco netos para negociar os direitos e bateu à porta da José Olympio, editora que publicou todos os livros da autora a partir de 1947 — o único anterior a esse ano, “Poemas” (1937), saiu pela Pongetti.

— Para mim, um dos motivos de ela ter sido esquecida foi seu segundo casamento, com Lourival Fontes (chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda de Getúlio Vargas). Ela ficou muito associada ao poder, e as pessoas não perdoam isso — observa Ramon, que cursa atualmente um mestrado, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com foco na produção poética da escritora.

“LIVRO-VINGANÇA”, DIZ ANA ARRUDA

Para a escritora e jornalista Ana Arruda Callado, autora da biografia “Adalgisa Nery — Muito amada e muito só” (1999, editora Relume Dumará), produzida para a série Perfis do Rio, o fato de a obra literária ter caído no ostracismo se deve, em grande parte, à falta de interesse dos dois filhos (Ivan e Emmanuel, ambos já falecidos) em cuidar do legado da mãe.

— Dizem que o sofrimento torna as pessoas boas. Não foi o que aconteceu com ela. Era valente, corajosa, mas má com os filhos. O Samuel Wainer, seu patrão na “Última Hora”, dizia que ela só se casou com Lourival Fontes para maltratar o Murilo Mendes (o poeta, muito ligado a Ismael, pediu-a em casamento diversas vezes após a morte do amigo).

“A imaginária” foi publicado em 1959, 25 anos depois da morte de Ismael Nery (1900-1934) e seis após a separação de Lourival Fontes, tornando-se um grande sucesso à época, com cinco edições. O romance trata apenas do primeiro casamento, aquele que a oprimiu. Na abertura de sua biografia, Ana Arruda Callado reproduz uma cena entre Ismael, com a tuberculose avançada, e a mulher. “Sentindo a hemoptise iminente, ele abraçou-a com força. Enquanto o sangue se espalhava pelo vestido simples e bem talhado, ela ficava impassível”, relata. E conta ainda que ele a intimava a beber do mesmo copo no qual já havia sorvido a gemada que a mulher lhe preparara.

— O Ismael foi de uma violência horrível. E ela foi totalmente submissa. Enquanto esteve casada, não escreveu uma linha. Se o fez foi escondida — diz Ana, que, em sua biografia, refere-se a “A imaginária” como “Livro-vingança”, já que expõe um lado nada glamouroso do artista e pensador, importante nome do modernismo brasileiro.

LIVRO-CHOQUE, DIZIA DRUMMOND

Que Berenice, a narradora de “A imaginária”, é Adalgisa, isto é certo. Ainda que detalhes tenham sido modificados (como a idade do casamento, ocorrido aos 16 anos, ou a nacionalidade da madrasta, que era espanhola), a história da menina de infância triste que se apaixona pelo vizinho bonito e interessante foi confirmada como real pelos dois filhos e pela própria Adalgisa, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, em 1967.

O interessante é que ela só floresceu após a morte de Ismael. Sua beleza e inteligência foram louvadas por poetas e pintores. Durante o casamento, a casa era frequentada por Murilo Mendes, Pedro Nava, Jorge de Lima e Manuel Bandeira, entre outros. Mendes, Bandeira e Carlos Drummond de Andrade lhe dedicaram poemas. Portinari pintou-lhe o retrato (é dele a capa da primeira edição de “A imaginária”). Ismael, naturalmente, fez vários. E, muito depois, Diego Rivera também (o pintor e Frida Kahlo tornaram-se próximos de Adalgisa e Lourival Fontes quando este foi enviado ao México por Getúlio Vargas para servir na embaixada brasileira).

Editora-executiva da José Olympio, Elisa Rosa vê no romance, saudado por Drummond como “livro-choque”, de “beleza dolorida e profunda”, qualidades que justificam sua reedição:

— “A imaginária” é altamente poético, bem escrito, conta uma história muito feminina. Tem qualidade literária, além de ser relevante até historicamente. Lembra, de certa forma, Clarice Lispector, com seus diálogos interiores, sua sensibilidade feminina, oprimida pelo casamento, pelos pais, pelo mundo.

No lançamento, amanhã, haverá uma conversa com a participação de Ramon Nunes Mello, Ana Arruda Callado, que assina o prefácio da nova edição, e Affonso Romano de Sant’anna, cujo ensaio “Adalgisa Nery: vampirismo masculino ou a denúncia de Pigmalião” (1988) é reproduzido no volume.

TRECHO DE “A IMAGINÁRIA”:

“Eu notava mais esse desconcerto. Ele sentia-se acima de todas as conjunturas da vida. Opinava drasticamente. Lembro-me de um fato importante para mim naquela época. Um dia um amigo nosso, poeta extraordinário, vendo-me e sabendo que eu não tinha convivência de amigas, conhecendo a minha vida entre alucinados, sem distrações normais, perguntou ao meu marido se ele não receava que eu, uma mulher tão jovem, vivendo unicamente entre homens, viesse a ter preferência por um de seus amigos. Recebeu como resposta: ‘A minha mulher é como a minha mão. No dia em que ela gangrenar, eu a decepo e continuo a viver com o resto do corpo.’

Sim, eu não passava de um detalhe que não fazia falta ao todo. Mal sabia ele que o meu mundo era grandioso, o meu mundo estava na sua vida e na sua alma separado por um silêncio que ele mesmo provocara”.